Uma Epopeia Contra o Relativismo Ético
- 13 de jun. de 2024
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O relativismo ético, doutrina que propõe que os valores morais são relativos aos contextos culturais, históricos ou pessoais, encontra adversários poderosos na filosofia clássica e medieval. Platão, Aristóteles e Agostinho de Hipona, cada um à sua maneira, argumentam contra essa visão fragmentada da moralidade, defendendo um ethos que transcende as contingências do tempo e do lugar.
No contexto da retórica, ethos é uma das três formas de persuasão, ao lado de logos (lógica) e pathos (emoção). Ele diz respeito à credibilidade e autoridade do orador ou escritor, e como esses elementos influenciam a capacidade de persuadir o público. Um "ethos comum" se refere aos valores e crenças compartilhados entre o orador e o público, facilitando a comunicação e a persuasão. Na sociologia e na antropologia, o ethos comum é entendido como a cultura ou moralidade compartilhada por um grupo social, incluindo tradições, normas, valores, rituais e práticas que definem a identidade coletiva e a coesão social.
Na "República", Platão apresenta a alegoria da caverna como uma metáfora da condição humana, aprisionada por percepções limitadas e distorcidas. Os prisioneiros da caverna, iludidos pelas sombras, representam aqueles que aceitam as opiniões populares e as convenções sociais sem questionamento. Para Platão, o relativismo ético é uma forma de permanecer nas sombras, incapaz de reconhecer a luz do Bem absoluto, que ele considera o princípio fundamental de toda moralidade. Platão argumenta que a justiça, uma virtude central em sua filosofia, deve ser compreendida à luz de uma realidade transcendental, independente das opiniões humanas. Assim, o relativismo ético é uma manifestação de ignorância, uma recusa em buscar a verdade que reside além das aparências.
Aristóteles, em sua "Ética a Nicômaco", constrói sua ética sobre a ideia de que o propósito da vida humana é alcançar a eudaimonia, ou felicidade plena, que é obtida através da realização das potencialidades humanas conforme a razão. Ele defende que existem finalidades objetivas para a vida humana, acessíveis à razão, e que a virtude é uma disposição estável da alma que se alinha com a natureza humana. O relativismo ético, ao negar a existência de critérios universais para a virtude, destrói a possibilidade de uma vida verdadeiramente humana. Sem esses critérios, a busca pela felicidade se fragmenta em uma multiplicidade de desejos e opiniões conflitantes, incapazes de proporcionar uma satisfação duradoura e significativa. A vida virtuosa, que requer uma harmonização da razão com a natureza humana, é comprometida pelo relativismo, que desconsidera essa harmonia em favor de uma pluralidade caótica de valores.
Agostinho de Hipona, em "Contra os Acadêmicos", confronta o ceticismo e o relativismo da Academia com uma perspectiva cristã. Ele defende a existência de uma verdade absoluta, encarnada em Deus, que é o fundamento último da moralidade. Para Agostinho, o relativismo ético é uma heresia que desvia a alma humana do seu caminho para Deus. A moralidade não é uma construção arbitrária, mas uma participação na ordem divina. Desviar-se dessa verdade significa não apenas um erro intelectual, mas uma corrupção espiritual. O relativismo, ao rejeitar a verdade divina, condena a alma a uma existência errante, perdida em um mar de incertezas morais, afastando-a da comunhão com Deus e da verdadeira felicidade.
Platão também alerta para as consequências sociais do relativismo ético. Em uma sociedade onde os valores morais são vistos como relativos, a justiça se torna uma mera convenção, manipulável pelas forças do poder e do interesse pessoal. Sem um bem objetivo que sirva de guia, a sociedade perde seu rumo, tornando-se vulnerável à corrupção e à tirania. A polis, em última análise, só pode prosperar se for fundada sobre uma compreensão transcendente da justiça e do bem. O relativismo, ao negar essa compreensão, ameaça a coesão e a estabilidade social, conduzindo a uma desintegração moral e política.
Aristóteles reforça essa crítica ao relativismo ao argumentar que a ética deve ser baseada na natureza humana e na realização da eudaimonia. Se os valores morais são relativos, a busca pela felicidade se fragmenta, tornando-se impossível identificar o que realmente contribui para a realização humana. A ética, para Aristóteles, é uma ciência prática que orienta a vida humana em direção ao seu fim natural. O relativismo, ao negar a existência de uma teleologia inerente à natureza humana, destrói a possibilidade de uma vida ética genuína. Sem critérios universais, a vida ética se dissolve em uma multiplicidade de desejos e opiniões conflitantes, incapazes de proporcionar a verdadeira felicidade.
Para Agostinho, o relativismo ético é uma ameaça à integridade da alma humana. A moralidade cristã, fundamentada na verdade divina, oferece uma orientação segura para a vida virtuosa e para a comunhão com Deus. O relativismo, ao rejeitar essa orientação, deixa a alma à deriva, sem um guia seguro para distinguir o bem do mal. A consequência é uma vida marcada pela confusão moral e pelo afastamento de Deus, a fonte última da verdade e do bem. Agostinho argumenta que a busca pela verdade é, em última análise, uma busca por Deus, e o relativismo, ao negar essa busca, conduz a uma vida de erro e perdição.
O relativismo ético pode levar à desintegração social. Platão, Aristóteles e Agostinho concordam que a sociedade humana precisa de um ethos comum para se manter coesa. Sem um conjunto compartilhado de valores morais, a sociedade se fragmenta em grupos com interesses e normas conflitantes, gerando conflitos e instabilidade. A ausência de um bem comum destrói a base da comunidade política e social, resultando em um estado de anomia e desordem. A justiça, que é a base da vida comunitária, depende de uma compreensão compartilhada do bem e do justo. O relativismo, ao minar essa compreensão, ameaça a própria possibilidade de uma vida em comum.
O relativismo também enfraquece a capacidade de julgamento moral. Se todos os valores são igualmente válidos, torna-se impossível criticar práticas injustas ou imorais. Platão argumenta que a justiça se baseia em uma verdade objetiva, e sem essa base, perdemos a capacidade de discernir o que é justo. Aristóteles, por sua vez, mostra que a virtude requer a capacidade de julgamento racional, que é minada pelo relativismo. Sem a possibilidade de apelar a critérios universais, o julgamento moral se reduz a uma questão de preferência pessoal ou cultural. Agostinho destaca que sem a verdade divina, perdemos a luz que guia nossos julgamentos morais. A capacidade de discernir o bem do mal, o justo do injusto, depende de um compromisso com a verdade que transcende as opiniões humanas.
A educação também sofre sob o relativismo ético. Platão vê a educação como um processo de iluminação, guiando a alma para fora da caverna da ignorância. Se não existem verdades morais objetivas, a educação perde seu propósito, reduzindo-se à mera transmissão de convenções sociais arbitrárias. A formação do caráter e da razão, essencial para Platão, torna-se impossível em um contexto relativista. Aristóteles acredita que a educação deve formar o caráter e a razão, orientando os jovens para a virtude. O relativismo priva a educação de sua missão formativa, transformando-a em uma transmissão de opiniões e convenções arbitrárias. Agostinho considera a educação como um meio de aproximar a alma de Deus, uma tarefa que se torna impossível se a verdade divina é negada. A educação, então, perde seu papel essencial de guiar a alma para a verdade e o bem.
A filosofia, enquanto busca pela sabedoria, é igualmente ameaçada pelo relativismo. Platão, Aristóteles e Agostinho veem a filosofia como uma busca pela verdade. O relativismo, ao negar a possibilidade de uma verdade objetiva, subverte a própria essência da filosofia. Sem um compromisso com a verdade, a filosofia degenera em um jogo de retórica e opinião, desprovido de profundidade e significado. A busca filosófica, que visa alcançar uma compreensão mais profunda da realidade e do bem, perde seu propósito em um contexto relativista. A filosofia, assim, deixa de ser um caminho para a sabedoria e se torna uma arena de disputas estéreis e inconclusivas.
Em suma, o relativismo ético, ao negar a existência de valores morais absolutos, desestabiliza as bases da justiça, da virtude e da sociedade. Ele mina a capacidade de julgamento moral, corrompe a educação e subverte a filosofia. Platão, Aristóteles e Agostinho, cada um à sua maneira, oferecem uma visão da ética que transcende as contingências do tempo e do lugar, defendendo a existência de uma moralidade objetiva, ancorada na razão, na natureza humana e na verdade divina. Contra o relativismo, eles afirmam a necessidade de um ethos comum que oriente a vida humana para o bem, a virtude e a felicidade. A integridade da vida humana e a coesão da sociedade dependem do reconhecimento e da adesão a esses princípios universais, que fornecem um fundamento seguro para a justiça e a virtude.
O relativismo ético, com suas raízes na multiplicidade de perspectivas culturais e históricas, falha em fornecer um critério sólido para a crítica moral, essencial para a justiça social. Platão, em sua "República", argumenta que sem um bem objetivo, a sociedade se torna vulnerável à manipulação por aqueles que detêm o poder, resultando em uma justiça que favorece os fortes e prejudica os fracos. A justiça, para Platão, deve ser ancorada em um ideal transcendente que todos possam aspirar, independentemente de suas circunstâncias individuais. O relativismo, ao negar esse ideal, priva a sociedade de um critério comum para julgar as ações humanas, tornando a justiça uma questão de poder e não de verdade.
Aristóteles, em sua análise da amizade na "Ética a Nicômaco", destaca a importância de uma base moral comum para a construção de relacionamentos verdadeiros e duradouros. A amizade, que ele considera uma das maiores fontes de felicidade, é fundamentada em um compartilhamento de valores éticos e virtudes. O relativismo, ao fragmentar esses valores, dificulta a formação de amizades genuínas, que requerem um entendimento comum do que é bom e virtuoso. Sem essa base comum, os relacionamentos humanos se tornam superficiais e transitórios, incapazes de proporcionar a verdadeira eudaimonia.
Agostinho, ao refletir sobre a natureza do mal em suas "Confissões", argumenta que a negação de valores morais absolutos leva à banalização do mal. O relativismo, ao tratar todas as normas éticas como equivalentes, torna difícil condenar práticas verdadeiramente malignas. Para Agostinho, o mal é uma privação do bem, e reconhecer essa privação é essencial para a redenção e a justiça. Sem uma compreensão clara do bem absoluto, a sociedade se torna incapaz de reconhecer e combater o mal de maneira eficaz, resultando em uma permissividade que agrava as injustiças e os sofrimentos humanos.
Portanto, Platão, Aristóteles e Agostinho, através de suas obras, fornecem uma crítica abrangente ao relativismo ético. Platão alerta para a corrupção política e social que resulta da falta de um bem objetivo, Aristóteles mostra como a fragmentação dos valores impede a realização da eudaimonia e da amizade verdadeira, e Agostinho revela como a banalização do mal compromete a busca pela justiça e pela redenção. Juntos, eles defendem a necessidade de valores morais universais e absolutos, que fornecem um guia seguro para a vida humana e a coesão social.
A crítica ao relativismo ético por Platão, Aristóteles e Agostinho revela a profundidade de suas preocupações com a justiça, a virtude e a verdade. Eles veem o relativismo como uma ameaça não apenas à ética individual, mas à ordem social e à busca pelo bem maior. Ao afirmarem a existência de um bem objetivo, eles proporcionam uma base sólida para a crítica moral, a educação e a filosofia, elementos essenciais para a construção de uma sociedade justa e virtuosa. A rejeição do relativismo, portanto, é apresentada não apenas como uma questão filosófica, mas como uma necessidade prática para a vida humana plena e a harmonia social.
Por Helida Faria Lima

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