Uma Análise de “Pequena História da República”
- 20 de jun. de 2024
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"A Pequena História da República" é uma obra singular na trajetória literária de Graciliano Ramos, um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX. Publicada em 1946, a obra se destaca não apenas pela maestria estilística característica de Ramos, mas também pela profundidade com que analisa os diferentes períodos da história política do Brasil, desde o fim da escravidão até a ascensão política de Getúlio Vargas.
Graciliano Ramos, conhecido por sua prosa concisa e direta, utiliza "A Pequena História da República" para explorar não apenas os eventos históricos em si, mas também as dinâmicas sociais e econômicas que moldaram o Brasil ao longo desses anos cruciais. A estrutura da obra é marcada pela divisão em pequenos textos ou crônicas, cada um focando em um aspecto específico da história republicana.
O título da obra sugere uma abordagem não convencional e intimista da história, onde o autor não se limita a narrar fatos conhecidos, mas busca investigar as motivações e consequências das ações dos indivíduos e das classes sociais que moldaram o panorama político brasileiro da época. Graciliano utiliza sua habilidade ímpar de observação e análise para pintar um quadro vivo e multifacetado das transformações sociais e políticas do país.
Um dos períodos mais explorados na obra é a chamada República Velha, caracterizada pelo domínio político das oligarquias agrárias e pela alternância de poder entre São Paulo (representando o café) e Minas Gerais (representando o leite), fenômeno conhecido como República do Café com Leite. Graciliano não se limita a descrever os eventos políticos desse período, mas também examina as contradições sociais e econômicas que sustentavam esse arranjo político, evidenciando as desigualdades e injustiças que permeavam a sociedade brasileira da época.
Se, o coronelismo era um sistema político dominante no Brasil durante o período em que Ramos escreveu, caracterizado pelo poder político e econômico concentrado nas mãos de grandes proprietários rurais, conhecidos como "coronéis", então Graciliano Ramos pode ser considerado o maior e mais assíduo crítico deste sistema politico - sistema este que frequentemente envolvia práticas autoritárias, clientelismo, controle político das regiões rurais e exploração da mão de obra camponesa. O coronelismo é abordado como parte de um sistema mais amplo de poder político concentrado e de manipulação das estruturas governamentais em favor de elites locais. Ramos denuncia a corrupção, o clientelismo e a exploração das massas populares por parte dessas elites, que se mantêm no poder através de práticas autoritárias e coercitivas.
E, para quem consome o autor, sabe que as críticas ao coronelismo não se restringem só "A Pequena História da República", pois em "Vidas Secas", Graciliano retrata a vida miserável e opressiva dos camponeses no sertão nordestino, mostrando como o coronelismo contribui para a perpetuação da pobreza, da injustiça e da falta de perspectivas para as pessoas comuns. Ele critica a exploração desumana dos trabalhadores rurais e a falta de oportunidades para aqueles que são subjugados pelo poder dos coronéis. Enquanto em "Angústia", Ramos também aborda questões sociais e políticas, explorando o impacto do poder autoritário e da desigualdade na vida das pessoas comuns. Assim, suas obras não apenas narram histórias individuais, mas também funcionam como críticas sociais profundas ao sistema de coronelismo e suas consequências devastadoras para a sociedade brasileira.
Além disso, a obra de Graciliano Ramos também aborda temas como a abolição da escravatura e os impactos dessa transição para esta sociedade brasileira, bem como a proclamação da República e as expectativas não realizadas de democratização e progresso social que muitos esperavam na época.
A escrita de Graciliano Ramos em "A Pequena História da República" é marcada por uma mistura de objetividade e introspecção. Ele não se contenta em apenas relatar os eventos históricos, mas busca compreender as forças subjacentes que os moldaram, os interesses em jogo e as consequências para as vidas dos brasileiros comuns. Isso confere à obra uma riqueza de análise que transcende o mero registro histórico, tornando-a uma reflexão profunda sobre a natureza da política e da sociedade brasileira.
Em suma, "A Pequena História da República" de Graciliano Ramos é não apenas um testemunho literário dos períodos cruciais da história do Brasil, mas também uma obra que revela as complexidades e contradições de uma nação em constante transformação. Ao explorar esses temas com profundidade e intelectualidade, Ramos nos convida a refletir sobre o passado para entender melhor o presente e vislumbrar o futuro de uma nação em construção.
Por Helida Faria Lima

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