Um Romance Satírico: Memórias Póstumas de Brás Cubas
- 2 de jul. de 2024
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"Memórias Póstumas de Brás Cubas", publicado em 1881, é uma obra-prima do realismo brasileiro escrita por Machado de Assis, que subverte as convenções românticas da época ao apresentar uma narrativa inovadora e satírica. A obra é narrada pelo próprio Brás Cubas, que já falecido, decide contar sua vida do além-túmulo, observando o mundo terreno com ironia e desencanto, sarcasmo e desaponto.
O romance inicia com a célebre frase "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias Póstumas", estabelecendo imediatamente o tom irônico e autoconsciente que permeia toda a narrativa. Brás Cubas, um aristocrata ocioso e cínico, relata sua vida desde a infância privilegiada até a morte, abordando temas como amor, ambição, família e a sociedade brasileira do século XIX.
A estrutura fragmentada do livro é uma das suas características mais distintivas, manifestando a genialidade literária de Machado de Assis. E ao empregar capítulos curtos e episódicos, frequentemente desprovidos de linearidade, o autor explora com maestria o fluxo de consciência de Brás Cubas. Essa abordagem narrativa, longe de seguir uma progressão temporal convencional, fragmenta a história em pequenas vinhetas que refletem a mente errática e introspectiva do narrador.
Machado utiliza essa técnica para inserir, de maneira sutil e mordaz, reflexões filosóficas e sociais que interrompem a narrativa principal, revelando a visão cínica e irônica de Brás Cubas sobre a vida e a sociedade. Esse método desafia as expectativas tradicionais da narrativa ao desconstruir a linearidade e a continuidade, optando por uma estrutura que reflete a complexidade e a fragmentação inerentes à condição humana.
A fragmentação narrativa de Machado de Assis é, em essência, uma metonímia da vida e da mente humanas, cujos eventos não seguem uma ordem linear e as memórias se amalgamam com percepções presentes. A escolha por uma cronologia não rígida, que salta entre diferentes momentos da vida do protagonista, reforça essa sensação de descontinuidade e fragmentação, subvertendo as convenções literárias de seu tempo. E essa estrutura permite a introspecção e a meditação filosófica, características centrais do romance. Brás Cubas, como narrador post-mortem, transcende as limitações temporais e espaciais, refletindo sobre sua existência de maneira caprichosa e desordenada. Tal liberdade narrativa espelha a liberdade de pensamento do próprio Machado de Assis, que utiliza o romance como um veículo para explorar temas profundos e complexos de forma inovadora. Indubitavelmente, a estrutura fragmentada do livro transcende uma mera escolha estilística, constituindo-se como uma representação da condição humana em sua complexidade. Pois ao adotar essa técnica, Machado de Assis não apenas oferece uma crítica sutil e mordaz da sociedade de sua época, mas também cria uma obra de profundidade e originalidade ímpares, diga-se de passagem.
A sátira constitui-se como uma característica central em "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Machado de Assis, com seu estilo inconfundível, emprega uma crítica incisiva à hipocrisia social, às instituições tradicionais e aos valores burgueses de sua época, fazendo-o de maneira subversiva e inovadora. O protagonista e narrador, Brás Cubas, na condição de defunto autor, oferece uma perspectiva singular e descompromissada, que lhe permite expor suas falhas e contradições com um humor mordaz e irônico.
Machado de Assis utiliza a figura de Brás Cubas para desmascarar as pretensões e as falsidades da sociedade burguesa do século XIX. O narrador, com sua visão desencantada e cínica, desafia o leitor a questionar as normas sociais e morais impostas, revelando a futilidade e a superficialidade dos valores dominantes. Através de suas memórias, Brás Cubas expõe as hipocrisias da elite, mostrando como as convenções sociais são frequentemente utilizadas para mascarar interesses pessoais e egoístas.
Mas, claro, a crítica de Machado de Assis vai além da mera descrição satírica. Ele subverte as expectativas do leitor ao criar um narrador que, apesar de morto, mantém uma voz viva e perspicaz. Esse artifício literário permite uma análise profunda e irreverente da condição humana e das instituições sociais. A sátira de Machado é, portanto, um instrumento poderoso que não apenas diverte, mas também provoca reflexão e questionamento.
Ao longo do romance, este humor mordaz de Brás Cubas desnuda a mediocridade e a mesquinhez dos personagens, inclusive a sua própria. Essa autocrítica é uma das marcas do estilo machadiano, que combina leveza e profundidade, humor e seriedade. Através de uma linguagem elegante e precisa, Machado de Assis constrói uma sátira que é ao mesmo tempo uma crítica social e uma meditação filosófica sobre a vida, a morte e a moralidade, ou a imoralidade, sabe-se lá os defuntos.
E para além da crítica social, o romance "Memórias Póstumas de Brás Cubas" de Machado de Assis é uma profunda reflexão sobre a mortalidade e o legado. Brás Cubas, ao revisitar sua vida a partir do além, confronta-se com suas escolhas e as consequências de suas ações, revelando uma visão fatalista e resignada da existência humana.
O narrador, na condição de defunto autor, oferece uma perspectiva única sobre a vida e a morte. Liberto das convenções terrenas, Brás Cubas reflete sobre os eventos de sua vida com um distanciamento irônico e desencantado. Ele revisita suas ambições, fracassos, amores e desilusões, ponderando sobre a futilidade das aspirações humanas e a inevitabilidade da morte. Essa retrospectiva pós-morte permite a Machado de Assis explorar temas filosóficos profundos, questionando o sentido da vida e o valor das conquistas humanas.
A visão fatalista de Brás Cubas é expressa através de uma narrativa que subverte a ideia tradicional de progresso e realização pessoal. Ao invés de uma trajetória ascendente de crescimento e sucesso, a vida de Brás Cubas é marcada por uma série de fracassos e desilusões. Suas reflexões no além destacam a impermanência e a insignificância das realizações humanas diante da inexorabilidade da morte. Essa abordagem resignada sugere que, independentemente dos esforços e ambições, o destino final é o mesmo para todos: o esquecimento e a dissolução.
Machado de Assis, ao fazer Brás Cubas confrontar suas próprias limitações e falhas, proporciona uma meditação sobre a natureza efêmera do legado humano. O narrador, ciente da inutilidade de suas ações e das ilusões que cultivou em vida, oferece uma crítica sutil à vaidade e ao orgulho que frequentemente governam as ações humanas. A sua resignação pós-morte é uma aceitação irônica de que a vida, com todas as suas complexidades e contradições, é inevitavelmente destinada ao mesmo fim.
Essa reflexão sobre a mortalidade é intensificada pela estrutura fragmentada do romance, que espelha a descontinuidade e a imprevisibilidade da vida. Os capítulos curtos e episódicos, muitas vezes não lineares, reforçam a ideia de que a existência é uma série de momentos desconexos que, no fim, são unificados apenas pela morte. Conectados pelo fim, talvez. Brás Cubas, como narrador, utiliza essa fragmentação para pontuar suas observações filosóficas e satíricas, criando uma obra que é ao mesmo tempo uma crítica social e uma meditação existencial.
Se tratando de trechos, desde o início do romance, Machado de Assis subverte a narrativa tradicional ao apresentar Brás Cubas como um narrador que escreve suas memórias depois de morto. No primeiro capítulo, intitulado "Óbito do Autor", Brás Cubas declara: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor.” Esta abertura inusitada não apenas estabelece o tom irônico e mordaz do livro, mas também sublinha a inevitabilidade da morte desde o início.
E um dos episódios mais emblemáticos é a tentativa fracassada de Brás Cubas de inventar um emplasto que curaria todos os males da humanidade, buscando assim alcançar a imortalidade e a fama. Ele sonha em ser lembrado por seu grande feito, mas seu projeto é interrompido por uma febre que leva à sua morte. Esta tentativa frustrada simboliza a futilidade das ambições humanas e a inescapável mortalidade: “Foi só então que me lembrei de uma bela ideia, um invento útil, humanitário, que poderia me dar uma posição e um nome. O emplasto Brás Cubas, que tinha a propriedade de aliviar nossa melancólica humanidade, em resumo, de curar a hipocondria, um emplasto anti-hipocondríaco destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade.”
Suas relações amorosas, especialmente com Virgília, também são marcadas por superficialidade e fracasso. O caso com Virgília, esposa de Lobo Neves, é cheio de paixão e intriga, mas também de desilusões e efemeridade. Brás Cubas não consegue manter um relacionamento duradouro ou significativo, refletindo a transitoriedade das experiências humanas. Ele próprio admite a futilidade dessas relações: “...é que Virgília era realmente bela e fascinante; mas os encantos dela, como os da vida, eram passageiros.”
Ao final de suas memórias, Brás Cubas reflete sobre o seu legado, ou a falta dele, melhor dizendo. Ele conclui que, ao contrário de muitas pessoas, não deixou descendentes, não perpetuou seu nome através de filhos. Este reconhecimento é feito de forma resignada e até irônica, destacando a insignificância de suas ações e realizações. “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”
O capítulo que descreve o enterro de Brás Cubas é outro exemplo da reflexão sobre a mortalidade. A cerimônia é narrada com um tom de desapego e ironia, sublinhando a indiferença da vida e a continuidade do mundo apesar da morte do protagonista: “E daí, enfiaram-me na cova. Está claro que uma cova rasa, modesta, sem pompa, que o meu pai não era daqueles que se atiram a despesas de amor-próprio post mortem, mas nem assim a emoção foi menor. Enterrei-me.”
É que em cada capítulo deste romance sátiro e sagaz, o humor afiado se mescla à melancolia existencial. E com a idiossincrasia dos personagens, pode-se dizer que esta obra é o retrato da inevitabilidade do esquecimento e a vaidade das pretensões individuais diante da vastidão do tempo.
Por Helida Faria Lima

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