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Um Romance Filosófico: O Triste Fim de Policarpo Quaresma

  • 3 de jul. de 2024
  • 5 min de leitura

"O Triste Fim de Policarpo Quaresma", obra-prima de Lima Barreto, é uma narrativa que se desdobra em camadas profundas de crítica social, política e filosofia, tecendo uma trama envolvente que espelha os dilemas da identidade nacional brasileira no início do século XX. Publicado em 1915, o romance oferece uma visão penetrante da busca utópica por uma identidade nacional puramente brasileira, personificada na figura do protagonista, o ingênuo e idealista major Quaresma.


A história se desenrola em três partes distintas, cada uma marcada por uma fase na vida de Quaresma e uma nova faceta de seu idealismo.


Na primeira parte de "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", Lima Barreto apresenta o major Quaresma como um personagem idealista e apaixonado pelo Brasil, cujo patriotismo o impulsiona a propor reformas radicais na estrutura social e política do país. Sua visão utópica é claramente delineada quando ele decide empreender uma missão pessoal para transformar a realidade ao seu redor.


Quaresma, um funcionário público dedicado, nutre um profundo amor pela cultura brasileira e uma crença fervorosa na capacidade do país de se autossustentar e prosperar através de seus próprios recursos e identidade cultural. Um trecho exemplar que ilustra seu fervor nacionalista é quando ele propõe a substituição do português pelo tupi-guarani como língua oficial do Brasil:


"O português é uma língua morta e o tupi é a que nos deve unir, pois só ela é genuinamente nacional e indígena." (Barreto, 1915)

Essa citação encapsula não apenas a determinação de Quaresma em promover a cultura indígena como um símbolo de autenticidade nacional, mas também revela sua visão radical de reforma linguística como um meio de fortalecer a identidade brasileira.


Além disso, Quaresma busca promover a agricultura como pilar da economia nacional, uma ideia que reflete seu desejo de autonomia e prosperidade baseada nos recursos naturais do Brasil:


"A agricultura é o verdadeiro pilar da riqueza pública, pois é ela que nos dá a força de viver e de progredir." (Barreto, 1915)

Essas palavras destacam a convicção de Quaresma na capacidade do Brasil de se emancipar economicamente através do desenvolvimento agrícola, uma posição que o coloca diretamente contra os interesses econômicos e políticos dominantes da época.


Assim, na primeira parte do romance, Lima Barreto não apenas estabelece a personalidade de Quaresma como um idealista comprometido com uma visão transformadora do Brasil, mas também introduz os temas centrais de patriotismo, identidade nacional e conflito entre idealismo e realidade que permeiam toda a obra.


Na segunda parte de "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", Lima Barreto mergulha profundamente na trajetória pessoal e filosófica do protagonista após sua queda da graça do sistema que tanto idealizou. Após ser traído e acusado injustamente, Quaresma é internado em um sanatório, onde se vê confrontado não apenas com a realidade de sua própria fragilidade, mas também com a dura verdade de um país onde as instituições são corrompidas e os interesses particulares prevalecem sobre o bem comum.


Nesse ponto da narrativa, Barreto faz uma transição crucial, movendo-se da idealização inicial de Quaresma para uma crítica contundente às instituições governamentais e aos poderes dominantes. A pureza e a ingenuidade de Quaresma são contrastadas de maneira vívida com a brutalidade da realidade que ele enfrenta. O sanatório se torna um microcosmo da sociedade mais ampla, onde as injustiças e a falta de compaixão se revelam de maneira severa.


Durante seu tempo de reclusão, Quaresma reflete amargamente sobre suas próprias ilusões e sobre como suas ideias visionárias foram esmagadas pelo sistema:


"Ele meditava sobre o erro de querer mudar o mundo com um ideal, e compreendia agora que os homens são cegos e surdos, e só se curvam às coisas de hábito e de interesses." (Barreto, 1915)

Essa reflexão marca um ponto de virada na compreensão de Quaresma sobre a natureza humana e sobre a estrutura social brasileira. Sua percepção da sociedade como uma entidade resistente à mudança, dominada por interesses mesquinhos, contrasta dramaticamente com suas próprias aspirações idealistas.


Com isso, a segunda parte do romance não apenas desenvolve o caráter de Quaresma como um indivíduo profundamente marcado pela desilusão e pela traição, mas também serve como um veículo para a crítica social e política de Lima Barreto. A obra transcende a história pessoal de um homem para oferecer uma reflexão profunda sobre as contradições e injustiças de uma sociedade em transformação, onde as ideias de progresso e idealismo frequentemente colidem com a dura realidade do poder e da corrupção.


Na terceira e última parte de "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", Lima Barreto atinge o clímax da narrativa ao mostrar a completa ruína do protagonista, Policarpo Quaresma. Após toda a sua jornada de idealismo e luta por uma pátria melhor, Quaresma se vê enredado nas teias do próprio sistema que ele tentou reformar. Acusado injustamente de traição, ele é condenado à execução, um destino cruel que contrasta brutalmente com suas aspirações nobres e seu amor inabalável pelo Brasil.


A trajetória de Quaresma nesta parte do romance é marcada pela desilusão e alienação progressivas. Ele percebe amargamente como suas ações foram mal compreendidas e distorcidas pelo poder estabelecido:


"Sua desilusão era completa. Via bem agora a estupidez do que fizera, a insensatez de sua crença, a esterilidade de suas ações." (Barreto, 1915)

Este trecho revela não apenas a devastação emocional de Quaresma ao confrontar a realidade sombria de sua situação, mas também sua amarga compreensão de que suas tentativas de reforma eram fadadas ao fracasso dentro de um sistema tão corrupto e intransigente.


A ironia do título, "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", é enfatizada neste ponto da narrativa. O adjetivo "triste" ressoa como um lamento não apenas pela morte física de Quaresma, mas pela morte de suas esperanças e ideais. Ele se torna um símbolo do idealista derrotado, cujas intenções eram puras e altruístas, mas cujas ações foram mal interpretadas e distorcidas pelo contexto político e social em que vivia.


"Assim acabou, miseravelmente, tristemente, aquele que mais odiava a tudo isso, com todas as forças do seu ser." (Barreto, 1915)

Estas palavras finais encapsulam a tragédia pessoal de Quaresma, um homem que lutou fervorosamente contra o status quo apenas para ser consumido por ele. Lima Barreto utiliza a história de Quaresma não apenas para contar um conto de vida e morte, mas para lançar um olhar crítico e penetrante sobre as contradições e injustiças de uma sociedade que sufoca os ideais de seus visionários.


Assim, "O Triste Fim de Policarpo Quaresma" permanece não apenas como um testemunho vívido da condição humana e das complexidades da sociedade brasileira no início do século XX, mas também como uma reflexão atemporal sobre as limitações do idealismo frente à implacável realidade política e social.


Lima Barreto utiliza Policarpo Quaresma como uma metáfora para explorar questões profundas sobre identidade nacional, patriotismo e a relação entre indivíduo e sociedade. A obra critica não apenas o nacionalismo utópico, mas também a estrutura de poder que perpetua injustiças e desigualdades no Brasil da época. A linguagem rica e satírica de Barreto, aliada à profundidade psicológica de Quaresma, transforma o romance em uma poderosa reflexão sobre os limites do idealismo frente à realidade política e social.


Na derradeira cena, Policarpo Quaresma enfrenta a morte não apenas como um indivíduo, mas como um símbolo da luta perdida contra um sistema que corrompeu seus ideais. Seu triste fim ecoa como um aviso sombrio sobre os perigos da ingenuidade em um mundo de interesses escusos e poderes implacáveis. Assim, seu epitáfio não é apenas sobre um homem, mas sobre uma nação que ainda busca reconciliar suas aspirações nobres com a realidade brutal que insiste em lhe negar a redenção.


Por Helida Faria Lima

 
 
 

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