Sobre Manuel Bandeira
- 21 de jun. de 2024
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Atualizado: 24 de jun. de 2024
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, mais conhecido como Manuel Bandeira, foi um dos mais proeminentes poetas brasileiros do século XX. Nascido em 19 de abril de 1886, em Recife, Pernambuco, e falecido em 13 de outubro de 1968, no Rio de Janeiro, Bandeira deixou um legado literário que atravessa gerações, marcando profundamente a literatura brasileira.
Manuel Bandeira nasceu em uma família de classe média alta. Seu pai, engenheiro, tinha interesse por literatura e arte, influenciando desde cedo o jovem Manuel. Em 1896, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, e mais tarde para Santos, buscando um clima mais favorável à saúde da mãe de Bandeira, que sofria de tuberculose. Foi em Santos que Bandeira contraiu a doença que marcaria sua vida e obra. Aos 18 anos, ele foi diagnosticado com tuberculose, e os médicos deram-lhe uma expectativa de vida curta, uma sentença que afetaria profundamente seu trabalho poético.
Apesar dos problemas de saúde, Bandeira não deixou de se interessar pelos estudos. Ele iniciou o curso de Arquitetura na Escola Politécnica de São Paulo em 1903, mas foi forçado a abandoná-lo devido ao agravamento de sua tuberculose. Em busca de um clima mais favorável, ele se mudou para a Suíça em 1913, onde foi internado no sanatório de Clavadel. Lá, teve contato com a obra do poeta francês Paul Éluard e outros escritores modernistas, que viriam a influenciar significativamente sua poesia.
O primeiro livro de Manuel Bandeira, "A Cinza das Horas", foi publicado em 1917. Esta obra, fortemente influenciada pelo simbolismo e pelo parnasianismo, refletia o pessimismo e a melancolia decorrentes de sua doença. Em 1920, publicou "Carnaval", onde já se percebem os primeiros sinais do modernismo que viria a marcar sua obra. O tom mais leve e o uso de temas do cotidiano anunciavam a ruptura com a poesia formalista de então.
Destrinchando-os, poderia dizer que, "A Cinza das Horas", marca o início de sua trajetória literária e reflete profundamente as circunstâncias pessoais do poeta. A obra, composta durante um período de reclusão e tratamento da tuberculose, é imbuída de um lirismo melancólico e de uma visão pessimista da vida. Influenciado pelo simbolismo e pelo parnasianismo, estilos predominantes na época, Bandeira explorou temas como a dor, a morte e a efemeridade da existência humana.
Em "A Cinza das Horas", a linguagem poética de Bandeira é marcada por uma sonoridade musical e um ritmo cadenciado, características do simbolismo, além de uma preocupação formal e estética herdada do parnasianismo. Os poemas deste livro são introspectivos e muitas vezes refletem a angústia do autor diante da doença e da incerteza do futuro. A obra é permeada por um sentimento de saudade e uma busca pela transcendência, revelando um poeta em formação que começava a encontrar sua voz.
Em "Carnaval", já apresentava sinais claros de uma transição em sua poética. Se em "A Cinza das Horas" predominava um tom sombrio e introspectivo, "Carnaval" trouxe uma nova perspectiva, com poemas mais leves e alegres, refletindo uma mudança no olhar do poeta sobre a vida e a literatura. Este livro representa uma espécie de rito de passagem, onde Bandeira começa a se afastar dos rígidos padrões formais e temáticos do simbolismo e do parnasianismo para adotar uma abordagem mais livre e moderna. "Carnaval" é uma obra que, apesar de ainda conservar elementos do simbolismo, já demonstra a influência do modernismo que se consolidaria na literatura brasileira nos anos seguintes. O título do livro é uma metáfora para essa transformação, simbolizando a celebração da vida e a liberdade criativa. A alegria e o colorido do carnaval brasileiro servem como pano de fundo para a exploração de temas cotidianos e populares, em contraste com a melancolia e o eruditismo de sua obra anterior. Neste livro, Bandeira começa a experimentar com formas poéticas menos convencionais, utilizando uma linguagem mais coloquial e acessível. Poemas como "Evocação do Recife" e "Pneumotórax" refletem essa nova abordagem, mesclando o pessoal e o universal de maneira inovadora. O poeta também explora a cidade e suas paisagens, incorporando elementos do urbanismo e da vida moderna em seus versos.
A transição de Bandeira do simbolismo e parnasianismo para o modernismo é significativa não apenas para sua obra pessoal, mas para a literatura brasileira como um todo. "Carnaval" pode ser visto como um precursor das ideias e estéticas que viriam a se consolidar durante a Semana de Arte Moderna de 1922, um marco na história literária do Brasil. Bandeira, embora não tenha participado diretamente do evento, influenciou muitos dos participantes e compartilhou do espírito inovador e contestador do movimento. Sua poesia, contudo, foi fundamental para o movimento modernista no Brasil. "Libertinagem", publicado em 1930, é considerado uma de suas obras-primas e um marco do modernismo brasileiro. Neste livro, Bandeira rompe definitivamente com a métrica e a rima tradicionais, adotando uma linguagem coloquial e temas do dia a dia, como em "Vou-me Embora pra Pasárgada", um de seus poemas mais famosos.
O modernismo trouxe consigo uma ruptura com as tradições acadêmicas e uma busca por uma identidade literária genuinamente brasileira. Bandeira, com seu olhar atento para o cotidiano e sua sensibilidade para os detalhes da vida urbana, contribuiu de maneira única para essa transformação. Seu trabalho ajudou a pavimentar o caminho para uma literatura mais democrática, que valorizava a experiência comum e a diversidade cultural do Brasil.
A obra de Bandeira é caracterizada pela simplicidade e pela clareza, que contrastam com a profundidade e a intensidade emocional de seus poemas. Sua poesia é muitas vezes marcada pela melancolia, pela saudade e pela reflexão sobre a morte, temas que o acompanharam ao longo de sua vida devido à sua doença. No entanto, Bandeira também é conhecido por sua capacidade de encontrar beleza e significado nas pequenas coisas do cotidiano, e por seu humor sutil e ironia.
Além de sua poesia, Manuel Bandeira foi um importante tradutor, crítico literário e professor. Traduziu obras de grandes autores como Marcel Proust, William Shakespeare e Rabindranath Tagore. Como crítico literário, suas análises ajudaram a divulgar e a consolidar a obra de outros escritores brasileiros. Na Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 1940, ocupou a cadeira número 24, contribuindo para a valorização da literatura brasileira.
Manuel Bandeira também atuou como professor de literatura no Colégio Pedro II e na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil (atual UFRJ), onde influenciou diversas gerações de escritores e leitores. Sua abordagem didática e sua paixão pela literatura deixaram uma marca indelével em seus alunos e colegas.
E nos últimos anos de sua vida, Bandeira continuou a escrever e a participar ativamente da vida literária brasileira. Sua saúde, embora fragilizada, não impediu que ele continuasse a produzir obras de grande relevância. Faleceu em 13 de outubro de 1968, no Rio de Janeiro, deixando uma obra vasta e diversa, que continua a ser estudada e admirada.
Manuel Bandeira é um dos maiores nomes da literatura brasileira, um poeta cuja obra transcende o tempo e permanece relevante até os dias de hoje. Sua capacidade de transformar experiências pessoais em poesia universal, sua sensibilidade ao tratar de temas cotidianos e profundos, e sua contribuição para o modernismo literário fazem dele uma figura indispensável para a compreensão da poesia brasileira.
Através de sua vida e obra, Bandeira ensinou que a beleza pode ser encontrada mesmo nas circunstâncias mais adversas, e que a poesia é uma forma de resistência e de celebração da vida.
Por Helida Faria Lima

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