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O Sertão, A Seca e O Sertanejo, Uma Entrevista com Francisco Moura

  • 26 de jun. de 2024
  • 7 min de leitura

Nascido em 07 de agosto de 1965, Francisco Moura é um homem do Sertão Nordestino, hoje comerciante varejista em São Paulo, mas outrora sertanejo sofrido em Rio Grande do Norte. Uma figura de confiança e respeito, que é estimado por sua generosidade, bondade e solidariedade com as pessoas ao seu redor. De caráter e integridade ímpares. Terrivelmente cristão e sensível a causa da viúva, do órfão e do oprimido. Proseador, e em sua prosa diverte e ensina a todos.



Onde o senhor nasceu?

Eu nasci no sítio vertente do município de Umarizal, no estado do Rio Grande do Norte.

Na época, não existia hospital, os partos eram assistidos por parteiras. O meu pai montava no cavalo e ia a uma distância de mais ou menos cinco quilômetros. Chamava a parteira para assistir o parto da minha mãe.


Como descreve a casa em que morou?

A casa em que eu nasci era de tijolo cru, sem reboco. O piso era de cimentado e o estilhado era feito com carnaúba, a linha central era carnaúba e as telhas de barro. O meu pai que construiu essa casa, e tinha uma sala de janta, sala de estar e a cozinha e dois quartos. O banheiro não existia, as necessidades eram feitas no mato. Não tinha luz elétrica, na minha época, o claro era só de lamparina.


Como fora sua infância?

Na minha infância, meu pai nunca comprou um brinquedo para nós, até mesmo porque não tinha onde comprar. Nossas brincadeiras era osso de boi, para inventar que era fazendeiro, juntar um monte de osso de boi e brincando que era fazendeiro. Como ficamos um pouco maiores, depois de 8 anos de idade, é obrigado a trabalhar para ajudar os pais.


O que o senhor comia e quais pratos eram os seus favoritos?

Então, quando havia inverno, a gente fazia muita comida de milho, que era o mingau, era a pamonha, milho cozido, milho assado, o arroz, o feijão, a gente colocava mais feijão do que arroz, e o leite, quando havia inverno, já que quando havia seca, não tinha o leite. Era arroz, feijão e farinha. Era a base da sobrevivência do pessoal. Farinha de mandioca. E meu prato preferido, xérem com leite.


E quais festas eram as suas prediletas?

Festa Junina, inclusive está acontecendo agora aqui no Nordeste, no mês de junho e julho são festas juninas por toda a região. É porque essa era uma tradição, era não, continua sendo, tradição aqui do Nordeste. Ao mês de junho comemora muito as festas de São João, de São Pedro e assim vai. Ah, e nos meses de maio, o mês todinho havia novena, e novena as pessoas se reuniam nas casas, se juntavam todos para orar. Ou como falam aqui, rezar, para rezar.


Quais são suas primeiras lembranças do trabalho na roça?

A minha primeira lembrança da roça foi na época de apanhar algodão, meu pai acordava muito cedo, cinco horas da manhã, pegava o galão e ia ao cacimbão, trazia água, a mãe colocava nos potes, a mãe se levantava com um claro da lamparina que não tinha energia elétrica, fazia o café, fazia o fogo, colocava a válvula para ferver, para fazer o café, seis horas a gente ia para a roça para apanhar o algodão. Quando dava 11 horas, a gente voltava para casa para almoçar, almoçava, esperava uma hora da tarde. Voltava para a roça novamente para apanhar algodão. Isso num calor, num sol escaldante, era horrível. Mas tinha que fazer isso. Apanhar algodão, fazer aquele monte de algodão, enrolar no lençol e levar pra casa. Era o nosso serviço na roça. O meu primeiro serviço na roça.


Como era o manejo de água no Sertão em sua época?

A água era considerado o ouro do sertanejo, que nem em todo lugar conseguia-se água. Eu tive o privilégio de meu pai ter nas terras dele um cacimbão que ficava mais ou menos 100 metros de distância lá da... Mil metros de distância, um quilômetro, da nossa casa. Amanhecia o dia, meu pai, ao raiar do dia, antes de clarear, descia e no cacimbão, puxava a água, trazia para casa, colocava nos potes, voltava o cacimbão, pegava mais duas latas, duas latas d'água, e levava, colocava lá para a mãe lavar pratos, essas coisas, né? E era isso. O banho, o banho só à tarde, quando chegava da roça, ia lá no cacimbão tomar banho e não existia o sabonete, era com sabão, nem sabonete existia. Então não existia o sabonete e nem o papel higiênico, a gente fazia as nossas necessidades e se limpava com sabugo ou quando no inverno com folha de mato, era o único jeito de se limpar.


O senhor mencionou a dificuldade de buscar água a 1 km de distância. Como essa rotina impactava o seu dia a dia e a produtividade no campo?

Então, quando eu fiquei um pouco maior, aos 14 anos, a gente passou a buscar água junto com o pai. Éramos em 5, com o pai, então ficavam 6 galões de água e dava para se virar muito bem. Mas era muito cansativo, porque a primeira coisa que tinha que fazer era buscar água a 1 km de distância. Um galão que pesava muito, viu? Imagina, 2 latas de 18 litros sob os nossos ombros. Chegava na roça já cansado, para fazer o trabalho do dia a dia na roça. E tinha sempre um dia na semana que eu não ia para a roça, eu ia puxar água do cacimbão para a minha mãe lavar roupa. Eu puxava água para a minha mãe e minhas tias lavarem roupa.


E como era seu trabalho no campo?

O trabalho no campo se inicia no verão, a gente é obrigado a limpar, arrancar todo o mato seco, colocar fogo, deixar tudo limpinho, pra quando cair a chuva, pegar o boi, colocar no arado, para tombar a terra e depois plantar, e depois de plantado, com os dias tinha que limpar o mato novo que nascia, tinha que arrancar todo para que a planta crescesse sozinha, sem o mato. Era triste e dava vontade de chorar quando a gente plantava, a planta nascia, ficava a 20 centímetro do chão, parava de chover, a gente chegava lá à tarde, as plantas murchinha murchinha, por falta d'água ela não vingava, morriam todas. E o sertanejo ficava sem garantir o alimento do futuro.


Conte um pouco acerca dos sertanejos.

A vida sertaneja consiste em bons momentos quando há inverno e momentos ruins quando se prolonga a seca. No inverno há fartura, há fartura em toda a região, no tempo seco há miséria também por toda a vizinhança. Aquele que era mais inteligente ou mais esperto produzia muito alimento quando havia inverno e guardava, estocava para os dias difíceis. E sobrevivia muito bem, mas aqueles, coitados, que não tinham um palmo de terra, aí esses sofriam. Sofriam muito, porque eles viviam do trabalho deles, né? Na roça, se não havia inverno, não havia trabalho. Não tinha como ele ganhar o seu sustento. E era obrigado a viver de esmola, sair pedindo. Era complicado demais. Até mesmo porque na época não existia ajuda do governo, essa ajuda passou a existir quando o Brasil deixou de ser governado pelos militares, passou a ser governado pelos civis.


Como lidavam com os períodos de seca?

Na seca era muito difícil lidar, como eu te falei, aqueles que tinham a propriedade e produziam bastante alimento quando havia o inverno, guardava para comer nos tempos difíceis, que era nos tempos secos, né? Agora, que esse coitado, que não tinha terra, trabalhava para terceiros, de meieiro, né? Trabalhava de meieiro. Quem tem a propriedade cede para a pessoa trabalhar, aquela pessoa trabalha na propriedade, recolhe os alimentos, esses alimentos dividem, meio a meio, com o dono da terra e a pessoa que produziu lá na terra, entendeu? Essa pessoa que não tinha propriedade também, consequentemente, não tinha casa, morava de favor, nem aluguel tinha condições de pagar.


De que forma o Sertão moldou seu caráter?

O caráter do sertanejo. Em sua maioria, o sertanejo era, e ainda continua sendo, viu, analfabeto. Primeiro pela dificuldade da época de se frequentar uma escola. Para você ter uma ideia, eu comecei a estudar com 12 anos de idade. A escola ficava a seis quilômetros de distância, e quando a gente chegava em casa era obrigado a almoçar e ir para a roça trabalhar. Você não tinha nem tempo para fazer dever de casa. Chegar em casa almoçava e a gente tinha que ir correndo para a roça ajudar o pai. E o caráter era principalmente ser honesto, nordestino da época tinha que ser honesto e respeitar o próximo, um menino que passasse perto de um adulto e não pedisse licença e não baixasse a cabeça, passasse pelo meio de dois adultos. Se o pai estava perto, o pai já dava um tapa na cabeça para ele ser educado e não passar no meio dos adultos. Eu me lembro de um episódio quando eu era criança, vindo da escola, eu estava indo da cidade para o sítio, no meio do caminho, nós morávamos a 6 km distância, eu achei, como se fosse hoje, uma nota de 5 reais, cheguei em casa, falei pro meu pai, pai achei 5 reais, ele olhou pra mim, aí falou volta, vai lá no lugar onde você achou, deixa lá porque o dono vai procurar. Hoje em dia, o filho chega em casa e diz, pai, eu achei um relógio e o pai já fala, achado não é roubado. Mas ele não vai averiguar como que esse filho conseguiu um relógio, se ele achou mesmo de verdade.


Qual sua memória mais feliz do Sertão?

 A minha memória mais feliz foi meu primeiro Konga. Konga seria um tênis hoje. Nossa, mas como eu fiquei feliz com esse Konga.


Como o senhor define o sertanejo?

Então, o sertanejo representa uma força, uma coragem. Largavam suas esposas aqui no nordeste iam trabalhar no sudeste para mandar o sustento para os seus filhos e seus familiares. E com isso ajudou muito o sudeste a erguer seus prédios. Muito suor, muito trabalho.



Seu Francisco aos 28 anos, já em São Paulo - SP


Seu Francisco representa a essência do sertanejo nordestino na identidade nacional brasileira. Sua história de luta, resiliência e honestidade personifica a força e a coragem do povo do Sertão, destacando a importância desses valores na construção do Brasil. Seu Francisco é a personificação da força e coragem em seus sentidos mais genuínos. Ele exemplifica como o trabalho árduo e os valores sólidos podem superar as adversidades e contribuir para uma sociedade mais nobre e moral.


Entrevistado: Francisco Nildeni de Moura | Entrevistadora: Helida Faria Lima | Data: 26/06/2024



 
 
 

1 comentário


Membro desconhecido
27 de jun. de 2024

O conhecimento que absorvemos ao ouvir histórias e conselhos de pessoas assim, as vezes, é de maior valia que uma vasta bibliografia gravada de cor

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