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O Retábulo como Síntese de Teologia Visual no Mundo Hispânico: Uma Ode Barroca à Doutrina Encarnada

  • 18 de jul. de 2025
  • 5 min de leitura

No mundo hispânico do barroco, quando a palavra se encarnava na imagem e a doutrina se alicerçava na pedra dourada, o retábulo não era apenas um ornamento sagrado. Era o próprio corpo teológico da fé, hierofania de madeira, ouro e pincel, onde a alma popular encontrava, numa visão frontal e arrebatadora, a suma visível dos mistérios invisíveis. Mais que cenário, o retábulo era catequese perpétua. Erguido atrás do altar como se brotasse do próprio coração do sacrifício eucarístico, ele não ornava: ele pregava. Era o púlpito esculpido da ortodoxia, a tela multiplicada da Redenção, o cosmos simbólico onde os olhos eram chamados a crer antes mesmo que os lábios pudessem formular um credo.


A teologia barroca hispano-americana, herdeira da Escolástica tardia e em diálogo com a mística contra-reformista, encontrou nos retábulos a mais densa forma de expressão imagética de seus conteúdos. Do ouro das minas peruanas ao cedro das florestas mexicanas, os materiais tornavam-se mediadores sacramentais de um saber revelado. Os retábulos não apenas representavam cenas bíblicas, vidas de santos ou alegorias marianas: eles organizavam, com rigor teológico e intenção pastoral, uma narrativa visual que ascendia, painel a painel, do homem pecador à Trindade gloriosa. A lógica escolástica, com suas distinções e articulações, estava esculpida em molduras, arquivoltas, nichos e entablamentos.


Não há exagero em afirmar que, para a cristandade hispano-americana dos séculos XVII e XVIII, o retábulo era um sumário da Summa Theologiae de Tomás de Aquino. A natureza, o pecado original, a encarnação, a graça, os sacramentos e o juízo final—todos esses artigos de fé encontravam lugar e forma, cor e escala, nos sucessivos andares do retábulo, cujo próprio formato imitava a hierarquia dos céus. A base, com relíquias e martírios, sustentava a humanidade redimida; o corpo central, dominado por cenas da vida de Cristo e da Virgem, expressava o coração do mistério cristão; o ático, coroado por um Deus Pai ou pela pomba do Espírito, apontava à escatologia celeste.


A exuberância barroca, tão frequentemente interpretada como excesso estético ou apelo popular, é antes de tudo uma escolha doutrinal. A Igreja, reagindo aos ataques iconoclastas da Reforma, reafirmou no Concílio de Trento não apenas a legitimidade, mas a necessidade das imagens sagradas como veículos de edificação e fé. O retábulo, neste sentido, torna-se uma muralha contra a heresia do desencanto: proclama que o divino pode ser visto, que a beleza pode salvar, que o mistério se digna a ser tocado pelos olhos. Trata-se de uma "teologia da presença", onde cada flor talhada e cada raio dourado afirma: "Et Verbum caro factum est".


Nas catedrais da Nova Espanha, nos conventos do Alto Peru, nas missões do Paraguai, o retábulo era sempre mais do que arte. Era sacramental. Os mestres indígenas, catequizados mas profundamente sensíveis à simetria sagrada de suas próprias cosmogonias pré-cristãs, deram à talha barroca uma intensidade rítmica que funde, sem sincretismo, a pedagogia católica com o senso ameríndio do divino. Um exemplo admirável pode ser encontrado no Retablo Mayor da Igreja de San Pedro de Andahuaylillas, no Peru, onde o ouro domina não por vaidade, mas para representar a luz inacessível em que Deus habita. O que parece excesso é, na verdade, transbordamento de glória. A forma não compete com a substância; a eleva.


Rubén Darío, herdeiro do imaginário barroco que tanto marcou a alma hispano-americana, escreveu certa vez: “El arte es la belleza, y la belleza es Dios manifestado.” Tal frase resume o sentido último do retábulo: ele é a manifestação do invisível por meio do esplendor. A arte barroca não crê na timidez do símbolo, mas na vertigem do absoluto. Não há minimalismo num mundo onde Deus se fez carne e habitou entre nós. O excesso é fidelidade ao acontecimento cristão.


Do ponto de vista arquitetônico, o retábulo barroco se integra com a planta das igrejas de maneira quase ontológica. O templo é corpo místico; o altar, coração; o retábulo, rosto. Seus elementos verticais conduzem o olhar do chão à abóbada, da matéria ao espírito, como uma escada de Jacó onde anjos não descem: sobem. É a escada da mística carmelita, a ascensão de Santa Teresa, o êxtase de São João da Cruz. Mas não se trata de fuga do mundo: é precisamente na madeira, na folha de ouro, no cinzel, que o eterno se oculta. A estética barroca crê na analogia entis: toda criatura, mesmo a mais humilde, participa do ser e, portanto, pode dizer algo de seu Criador. Logo, tudo pode ser imagem: nuvens esculpidas, querubins regordetes, arcanjos com trombetas, colunas salomônicas em espiral como o tempo e a história.


É ainda necessário recordar que o retábulo, como texto visual, é parte da grande retórica do barroco hispânico. A disposição dos elementos obedece a um logos teológico. O centro é sempre o Redentor ou a Mãe de Deus, porque a história se organiza em torno da Encarnação. Os santos, dispostos como testemunhas, não são ornamentos: são doutrina viva. Martelo dos hereges, farol dos navegantes, escudo dos fiéis. As cenas da Paixão não narram por narrar: são caminho de purificação, itinerário da alma. A pintura de um São Lourenço martirizado ou de uma Virgem Dolorosa não comove apenas: converte. A lágrima que escorre do rosto de Maria ensina a amar com compaixão. A lança que transpassa o Cordeiro ensina o horror do pecado e a grandeza do perdão.


Essa pedagogia imagética era perfeitamente compreendida pelo povo simples. Não havia analfabetismo espiritual diante dos retábulos. Os olhos sabiam ler. Cada figura era uma letra, cada cena, uma frase; o conjunto, um evangelho inteiro. O barroco é alfabetização do mistério pelo esplendor. É por isso que, nas festas religiosas, o povo adornava ainda mais os retábulos com flores naturais, velas, tecidos, incensos. Não era profanação da arte, mas sua consumação: o retábulo vivo, celebrado, amado, respirado.


Com o advento da modernidade e a penetração de estéticas mais sóbrias, muitos retábulos foram destruídos, outros esquecidos, e não poucos relegados a curiosidades de museus. Mas o espírito que os animava permanece. Eles continuam a interpelar, com sua linguagem dourada, um mundo que já não crê na beleza como via da verdade. Diante da tela de um celular, talvez o olhar se tenha empobrecido. Mas ainda há quem entre numa antiga catedral de Puebla ou Cusco e sinta, de súbito, que os céus se rasgam num incêndio de luz. O retábulo não morreu. Dorme, à espera de que a alma moderna recupere o desejo do sublime.


E talvez esse seja o maior dom do retábulo barroco hispânico: ele não apenas ensinou os dogmas à América; ele nos ensinou a desejar o céu. Seu ouro não era vaidade, mas sede. Sua exuberância, um eco do excesso do amor divino que, não satisfeito em permanecer no alto, quis descer, encarnar-se, e deixar-se esculpir, pintar, adorar. Por isso, quando os sinos soavam e os fiéis se ajoelhavam diante do altar, o retábulo respondia com sua sinfonia silenciosa: hoc est enim Corpus meum. E o céu tocava a terra, como ouro em madeira, como graça em carne, como eternidade em forma.


Por Helida Faria Lima.

 
 
 

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