O Popular como Essência do Classicismo Brasileiro: Reflexões sobre Cultura e Língua
- 16 de jun. de 2024
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Atualizado: 17 de jun. de 2024
Neste ano de 2024, em setembro (7 de setembro), inauguraremos turmas do Curso de Português na Mafar.
Trazendo em grade, a história do português de Portugal e como ele se funde ao português do Brasil em determinada era.
Mas antes disto, tendo em acervo do site, uma brasilidade muito forte.
O que faz o Brasil ser Brasil não são só as ilustres figuras culturais, musicais e literárias: Machado de Assis, Tom Jobim e Graciliano Ramos. Mas é o geladinho por um real da moça que vende na porta de casa, campinho de futebol de terra, novela da Globo com barraco, fofoca e traição, pitú, chão de cimento queimado, muro com caco de vidro, banheiro com vaso de louça marrom, feijoada, brigadeiro, caipirinha, pipa, cerol, todas essas coisas mais imoderadas.
Às vezes erudiriam tanto o Brasil, que passa a ser Brazil. Deixa de ser nossa nação, nosso povo. Talvez isso no fator gastronômico seja o que mais me causa incômodo. Para que confeitar com nutella e pasta americana num país que há doce de leite e goiabada? Não quero comer cupcake ou red velvet, quero broa e bolo de milho.
A proposta de um acervo que aborde a brasilidade, é mostrar que a intelectualidade linguística está antes nos saberes desta cultura popular. De que é anacronismo glamourizar o Brazil e inferiorizar o Brasil brasileiro, anacronismo este que, como já dito em texto que escrevi para o blog desta escola, é uma porta aberta ao pedantismo.
Quero dizer, e escrever que, tudo o que chamamos de clássico hoje, já foi ouvido pelo povo, vide Homero que era recitado para criancinhas na Grécia.
É no popular irreverente do Brasil que surge nosso classicismo. Clássico cachorro amarelo, clássica cachaça, clássica coxinha, clássica tapioca, clássico bambu para deixar o varal em pé.
Quero mais que o Brasil intelectual, quero o Brasil profundo. Ainda mais dado o nosso contexto muito mais oral que escrito, muito mais de “contação” de história do que de escrevê-las. Essa oralidade brasileira é uma fonte rica de conhecimento e sabedoria, muitas vezes subestimada em favor da escrita formal.
Somos a nova Roma não só por nossos intelectuais serem ricos e profundos, mas porque somos divertidos e felizes. Rimos em meio ao caos, talvez esse seja o samba.
Me preocupa também o paisagismo estéril que imita modelos ingleses de urbanismo. Nas ruas já não se veem mais tantos pés de jabuticaba, limão e goiaba, tampouco de manga e acerola. E há um bom tempo me questiono para onde estão indo nossas praças. Nossos gazebos. Nossas festas infantis com balão para estourar. Nossas crianças brincando de bate bate, pega pega e amarelinha, fazendo coleção de bolinha de gude e bambolê, assistindo Cocoricó e Sitio do Pica Pau Amarelo, lendo Chico Bento e Turma da Mônica.
Em falar em criança, é claro que minha infância também é importante neste aspecto de enxergar ambos, o Brasil e o Brazil.
Passava a semana com minha família paterna, consumindo música clássica, tocando instrumentos litúrgicos, lendo Molière e Flaubert, praticando ofícios feminis como costurar e bordar. Indo ao colégio, frequentando aulas de etiqueta, comendo Bucatini all’Amatriciana e Tagliatelle al Tartufo – sempre em mesa posta.
Aos fins de semana, ia para a casa dos parentes maternos, mais humildes financeiramente e até mesmo iletrados. Os mais estudados tinham até a quinta ou sétima série.
Gostava de colocar diversos colchões na sala da minha tia e dormir no chão com meus primos.
Aos sábados, íamos a feira do São José, a gente pedia mais do que aguentava comer só para ganhar o pastel especial. E eu sempre fazia manha para ganhar chorinho de caldo de cana, tomava tanto que ficava quase com febre.
Minha tia fazia almoço especial em dia de domingo, era frango assado e salada de maionese, e eu ficava encarregada de ir à venda da rua comprar os refrigerantes de garrafa retornável.
Na época ainda existia moeda de um centavo, ela me deixava ficar com o troco do refri para comprar doce no bar. Aqueles baleiros coloridos tinham tudo o que eu queria: pé de moleque, bala de hortelã e doce de abóbora. Para mim que sempre fui fanática por açúcar, aquilo me parecia o céu.
É muito óbvio que eu nem prestava atenção em meu tio falando “a gente véve” ou minha prima falando “mortandela” e “sasicha” porque me vislumbrava com minha tia dizendo “eu truce salgadinho fofura pra vocês tudo comerem, senta e espera que vou por na vasilha”.
Em seguida ela chegava com várias vasilhas de margarina Delícia, meus primos mais velhos ficavam com menos salgadinho, eu e meus primos mais novos ficávamos com mais. Apesar dessa diferença, havia uma igualdade: todo mundo com a mão fedendo.
Minha tia também fazia suco Tang bem geladinho e colocava em copo de requeijão. Depois de beber, a cor do corante grudava no plástico. Aí iam eu e meus primos na garagem da Vanda comprar água sanitária para tirar a mancha dos copos – isto até que minha outra tia começasse a fazer sabão em barra para complementar a renda.
Um tempo depois surgiram os computadores com mouse de bolinha, a gente usava internet discada. Quando finalmente aprendi a usar disquetes, os pacotes de nescau ball começaram a vir com cd dentro. Aí minha tia comprava o cereal só para podermos ter o cd. Eu ficava com quase todos e ainda ganhava chamyto com bolinhas, acho que ela nunca escondeu a predileção por mim.
Contudo, o anacronismo nunca me brilhou os olhos, pois parecia me distanciar de tudo aquilo eu mais gostava: tia Vilma e seu “truce”, pé de moleque que vendia no bar e salgadinho fofura em pote de margarina Delícia. Se passar a semana toda longe e só poder vê-los ao fim de semana me causava angústia, como poderia eu passar uma vida distante?
Meus tios Joaquim e Adelson nunca leram novelistas como José de Alencar e Guimarães Rosa, mas pareciam entender de dramaturgia quando discutiam sobre Avenida Brasil e Salve Jorge.
Minha tia Vilma não concluiu o ensino fundamental, mas foi ela quem me ensinou raiz quadrada. Fazia conta como ninguém. Ela também era boa em dedução, me ensinou a medir com palmo.
Minha avó Djanira aprendeu a ler com a Bíblia, mas dizia que a gente tinha de estudar e fazer faculdade, que a vida não era brinquedo, não. E que a gente devia fazer isso o quanto antes, antes da porca torcer o rabo.
Portanto, a sabedoria da simplicidade é maior que a da pomposa riqueza. O mesmo acontece com a profundidade do amor simples, em gestos pequenos: vale mais quem dá um prato de comida, sendo este o seu único prato, do que quem dá várias cestas básicas, mas milionário. É como a oferta da viúva. E o Brasil é assim, dá o que não tem, onde moram dois, moram três. Certamente, esse também é o português que será ensinado e ministrado na Mafar.
Que este acervo ilustre que o clássico se origina do popular, que o que é reverenciado hoje como erudito já foi parte da cultura comum.
Que antes Elis Regina cantava no Beco das Garrafas.
Que Cartola se chama Cartola pois, com dificuldades financeiras, sua numerosa família foi obrigada a mudar para o Morro da Mangueira, a nascente favela, onde fez amizade com Carlos Cachaça e outros bambas, além de se iniciar no mundo da boemia, da malandragem e do samba. E pós a morte de sua mãe abandonou os estudos, terminando apenas o primário. Virou servente de obra e passou a usar um chapéu-coco para se proteger do cimento que caía de cima. Por usar esse chapéu, ganhou dos colegas de trabalho o apelido "Cartola”.
Assim, a ideia de inaugurar turmas do Curso de Português na Mafar em 7 de setembro é simbolicamente forte, pois essa data celebra a independência do Brasil, um momento oportuno para refletir sobre nossa identidade linguística e cultural.
Com essa visão integradora e valorizadora da cultura popular, certamente espero contribuir para a formação de uma nova geração que compreende e valoriza o verdadeiro espírito brasileiro.
A vivência com a família paterna, mais abastada e erudita, contrasta com os fins de semana na casa dos parentes maternos, em que a simplicidade e a alegria das pequenas coisas prevaleciam. Essa dualidade ressalta a riqueza da experiência cultural brasileira, mostrando que ambas as realidades contribuem para a formação de um indivíduo e de uma nação.
Sendo o acervo um convite à reflexão sobre o que realmente faz o Brasil ser Brasil, e como podemos preservar e valorizar nossa cultura autêntica em meio às influências externas e às mudanças sociais. É um manifesto pela valorização do Brasil profundo, aquele que é irreverente, alegre e genuíno.
Por Helida Faria Lima

Triste a pessoa que não tem o privilégio de te conhecer....ficaria lendo por horas, quando sai o seu livro? Saiba que serei a primeira a comprar, parabéns pelo texto e parabéns por nós inserir dentro dele.
Helida, meu bem, você é a melhor e não há quem não perceba. Irretocável. Maravilhosa. Tudo em você é lindo. Texto fantástico. Consigo te imaginar dizendo "quero broa e bolo de milho", consigo te ver proseando sobre gastronomia, e nos saberes da música você também é rainha. Sua originalidade absoluta diz muito sobre o que esta escola está se tornando e há de se tornar. Quem é de longe semelhante à você? Ninguém.
Ótimo texto! Nos lleva a reflexão sobre as coisas que devemos aproveitar também...