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O Desengaño e o Teatro do Mundo: Ilusão, Vaidade e a Visão Agostiniana da Transitoriedade na Tradição Barroca Hispânica

  • 18 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

No âmago do Barroco espanhol pulsa uma angústia ontológica, uma consciência dilacerada pela desconfiança em relação aos sentidos, à matéria, à glória mundana. Esse estado de espírito encontra seu nome mais alto e enlutado na noção de desengaño — termo que, longe de significar puro desencanto ou tristeza banal, se ergue como categoria metafísica, antropológica e, sobretudo, teológica. O desengaño é o amargo dom do ver claro; é a luz que cega, a lucidez que despedaça o véu da ilusão e revela, no esplendor do mundo, o nada que o sustenta. E, como expressão estética e filosófica, esse conceito se encarna com especial densidade na literatura dramática do Século de Ouro, sobretudo na obra-prima de Pedro Calderón de la Barca, La vida es sueño.


O mundo como teatro — el gran teatro del mundo — é a imagem axial do barroco hispânico. Não se trata de mera metáfora retórica, mas de uma construção imaginal que atravessa a ontologia e a cosmologia da época. Nesta chave interpretativa, o palco é o cosmos; os homens, atores inconscientes de papéis que não escolheram, mas dos quais serão cobrados. Ao fim da peça, quando as luzes se apagam e a cortina desce, não restará a pompa nem a máscara: só a alma nua diante de Deus. O teatro torna-se, pois, lugar de revelação, espaço de crise e possibilidade de salvação — e a vida, um interlúdio fugaz cujo valor se mede não pela glória efêmera, mas pelo juízo eterno.


Em La vida es sueño, Calderón não apenas dramatiza a instabilidade do real, mas propõe uma metafísica do efêmero. Segismundo, o príncipe enclausurado, personifica a condição humana: preso entre natureza e razão, entre instinto e liberdade, entre sonho e vigília. Ao despertar para o mundo, vê-se envolto por honras e poderes que depois lhe são retirados como se jamais tivessem existido. A pergunta ecoa: foi real ou apenas sonho? E com ela, a amarga sabedoria do desengaño começa a germinar em seu coração. “¿Qué es la vida? Una ilusión, una sombra, una ficción... y el mayor bien es pequeño: que toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son.”


Esses versos finais não são mero niilismo poético. Há neles um subsolo teológico que remonta a Santo Agostinho, cuja influência reverbera na cosmovisão tridentina que molda o Barroco católico. Agostinho, em suas Confissões e na Cidade de Deus, insiste na oposição entre o mundo terreno e a pátria celeste, entre o tempo e a eternidade, entre o amor sui e o amor Dei. O mundo, para o doutor de Hipona, é transitório, mutável, enganador. Nele, tudo passa — as riquezas, os prazeres, os impérios, os corpos. Agarrar-se a essas coisas é edificar sobre areia. A verdadeira vida, a única que importa, é a que se oculta sob o manto da graça e se revela na comunhão com o eterno.


É essa concepção agostiniana do mundo como “cidade do homem” — contaminada pela vaidade, pela soberba, pelo orgulho — que informa a ética do desengaño. Saber que tudo passa é o começo da sabedoria. E é justamente por isso que o Barroco não é cínico, mas ascético. Ele denuncia a ilusão para salvar a alma. Ele desvela o engano para convidar à conversão. O desengaño é ferida, mas também cura. É travessia pelo deserto de espelhos em direção a uma luz que não engana.

Essa dimensão teológica se amplifica quando se considera o imaginário da vaidade, outro pilar da sensibilidade barroca. A vanitas — popularizada nos quadros de Juan de Valdés Leal, como “Finis gloriae mundi” — mostra o corpo em decomposição, os ossos que jazem sob os brocados da glória terrena. É um memento mori visual, uma epifania da decadência, que reitera: “Pulvis es, et in pulverem reverteris.” A vida do homem, quando vivida como espetáculo de si, é negação da verdade; mas, quando assumida como serviço e obediência, torna-se prelúdio da eternidade. Nesse sentido, o desengaño é também um sacramento profano — o instante em que o homem deixa de representar para o mundo e passa a agir diante de Deus.


O teatro barroco, portanto, não é apenas espelho do mundo, mas juízo sobre ele. A dramaturgia de Calderón, com sua teatralidade vertiginosa, com suas simetrias morais e labirintos metafísicos, visa desiludir o espectador, arrancá-lo de seu torpor e lembrá-lo de sua condição efêmera. Ao contrário do humanismo renascentista, que celebrava o homem como medida de todas as coisas, o Barroco desconfia das aparências, recua do brilho enganador e interroga os fundamentos da existência. Nesse recuo está sua força espiritual, sua fome de verdade última.


Por isso mesmo, o desengaño não é uma renúncia niilista, mas um ato de amor à verdade. É o gesto de quem arranca os ornamentos da mentira para buscar, por trás da máscara, o rosto que não perece. É a pedagogia da eternidade infiltrada na estética da transitoriedade. E nesse paradoxo se condensa toda a tensão barroca: denunciar o mundo, não por desprezo à criação, mas por desejo de redenção; rir-se das glórias terrenas, não por despeito, mas por saudade do céu.

Assim, o Barroco espanhol, enraizado na mística de Teresa de Ávila, na ascese de João da Cruz e na lucidez de Agostinho, é mais do que um estilo: é uma teologia encarnada em arte. É um olhar que atravessa a névoa da ilusão e que, ao reconhecer a vida como sonho, antecipa o despertar eterno. E, por isso mesmo, sua melancolia não é desespero, mas esperança severa; sua angústia, prece; seu teatro, sacramento.

Pois aquele que, no fim do ato, tiver vivido com humildade e temor, poderá enfim ouvir do Autor do drama as palavras que desenganam para sempre: “Bem está, servo bom e fiel... entra no gozo do teu Senhor.”


Por Helida Faria Lima.

 
 
 

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