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O Brasil e os Bairros

  • 26 de jun. de 2024
  • 3 min de leitura

Certamente, os bairros são personagens importantes em nossas autobiografias. Neles passamos todas as nossas vidas ou boa parte delas. Crescemos, vivemos, conhecemos, somos. Também é certo que as praças dos bairros também são atrizes principais das peças de socialização.


E servindo como cenários onde nossas vidas se desenrolam, é nos bairros onde construímos nossas identidades. Esses espaços são mais do que apenas locais geográficos; são microcosmos de cultura, história e relações humanas.


Em termos pessoais, os bairros são o pano de fundo de nossas memórias mais queridas. São nos bairros que damos nossos primeiros passos, fazemos nossos primeiros amigos e aprendemos as primeiras lições de convivência através de pequenas, mas significativas, interações diárias.


O bairro da Conceição foi onde morei desde os um, até os doze anos. E há história e cultura em cada esquina daquela vizinhança.


As ruas eram batizadas em homenagem a várias personalidades culturais e literárias, como a Rua José de Alencar, Rua Euclides da Cunha, Rua Guimarães Rosa e Rua Álvares de Azevedo. E não posso negar que essa geografia cultural despertava minha curiosidade pueril de criança – caminhava com olhos de descoberta, fitando as placas das ruas e pensava: que fizera Visconde de Taunay para receber tal honra?  Estas dúvidas infantis encontravam respostas quando eu devorava o acervo bibliográfico da biblioteca Nelson Fernandes – meu santuário de saberes, da primeira infância até a pré-adolescência.


Minha mãe me buscava do colégio, e para ir para casa, passava-se por outro cólegio: o colégio Casimiro de Abreu. Não porque era caminho, mas porque na calçada do cólegio, o seu Antônio vendia pipoca doce. E eu, não resistia, tinha de comer. Não havia caminho mais saboroso, não havia retorno mais doce ao lar. E assim, entrelaçada com a cultura e a história do meu bairro, minha infância foi um constante fluir de curiosidade e descobertas, cada passo ecoando a riqueza literária que me rodeava e cada dia, trazendo uma nova epifania.


Deve ser por isto que, para mim, hoje, a leitura das obras do poeta fluminense Casimiro José Marques de Abreu - tesouro da segunda geração do romantismo – tem gosto de infância e sabor de pipoca, pipoca doce. Tudo isto graças ao meu bairro, o bairro da Conceição.


Depois me mudei para o Jardim Casa Grande. Arborizado, envolto por represas, parques, trilhas e toda a espécie de riquezas hidrográficas. Arquitetonicamente, muito mais horizontal que Conceição, que é majoritariamente vertical.


Jardim Casa Grande tem uma praça em frente a um bosque de eucaliptos e lembro de ali caminhar todos os dias da minha adolescência, muitas vezes questionando o porquê das coisas: dos meus gostos e desgostos, amores e desamores, sossegos e desassossegos, crenças e ceticismos.


Depois de adulta, passei a correr pelas chácaras do bairro e as vezes parava para fotografar um macaco, um beija flor, um gato. Descansava aos pés das arvores, muitas vezes frutíferas, e ali contemplava toda a beleza da natureza.


Ia a cafeteria, pedia um quindim e lia todas as poesias de Sophia de Breyner e Cecilia Meireles, sem dar conta de o tempo passar.


As vezes passava o dia inteiro na casa da minha prima favorita, tocávamos piano e proseávamos sobre as frivolidades, as pautas literárias e sobre quem deixou de namorar quem.


Não me era estranho sair à rua e encontrar cavalos ou vacas.


A vista da minha cozinha apontava para um pomar de tomate, um pé de mamão e outro de limão.


Minha vizinha me dava um bocado de cana. E meu vizinho uma dúzia de bananas e abacates de seu quintal.


Os hortifrutis sempre tão lindos com as frutas e verduras orgânicas que vinham direto das plantações de Parelheiros.


É, Parelheiros tem cachoeiras, lagos, e uma rica produção agrícola. Também tem o segundo cemitério protestante do Brasil em que minha avó materna fora enterrada, mas acho que esta parte não gosto de escrever.


No fim, sei que o Brasil está intrinsecamente ligado aos bairros devido a cordialidade do contexto. O Brasil é o país do aconchego, do -inho, dessas pequenas conexões que duram para a vida toda: as crianças crescem, casam e têm filhos juntas. Num bairro todos se conhecem, a igreja fica no meio e todo mundo confia em todo mundo. Pelo menos era assim.

 

 Por Helida Faria Lima

 
 
 

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