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“L’enfer, c’est les autres.”("O inferno são os outros.") — Jean-Paul Sartre, Huis clos

  • 18 de jul. de 2025
  • 5 min de leitura

“L’enfer, c’est les autres.” No coração dessa afirmação — curta, cortante, quase um estilete filosófico — palpita a agonia do ser diante do espelho inevitável do outro. Sartre não escreve um aforismo. Ele inaugura uma prisão. A frase, tantas vezes repetida com desdém ou mal-entendido, não é uma condenação ao convívio, tampouco um hino à misantropia. É uma revelação escaldante, uma metáfora do ser exposto, nu e sem escapatória, à alteridade que nos define e nos condena, ao mesmo tempo.


Em Huis clos, a peça em que essa sentença é proferida, três almas estão trancadas num cômodo sem espelhos. Não há chamas, não há demônios com tridentes. Há apenas o olhar incessante dos outros. O inferno de Sartre é este: um espaço fechado onde o eu não pode mais ser senhor de sua própria narrativa. Onde cada gesto é testemunhado, interpretado, reduzido — um eu coagulado pelas lentes do outro. O olhar que observa e fixa é um olhar que cria; mas cria a partir de fora, impondo um eu que talvez não seja aquele que se crê ser. E nesse choque entre o eu que desejo ser e o eu que me devolvem, instala-se a tortura.


O existencialismo sartriano é uma filosofia da liberdade e da responsabilidade. Para Sartre, não há essência que preceda a existência. O homem está condenado a ser livre — condenado porque não há desculpas metafísicas: cada escolha é absoluta, cada decisão nos constrói, sem amparo no ser. Mas essa liberdade, quando lançada ao mundo, encontra o olhar do outro como um limite radical. Eu sou para o outro antes de ser para mim. Torno-me objeto de seu julgamento, de sua imaginação, de sua linguagem. O inferno é, pois, a consciência de que minha liberdade está sempre ameaçada por essa redução.


O inferno é o fim do anonimato ontológico. É a consciência de que há testemunhas da minha existência. Testemunhas que não apenas veem, mas dizem. E ao dizer, moldam. A alteridade é uma forja. Na convivência, sou exposto a uma transcendência que me ultrapassa. Torno-me personagem na narrativa alheia — e esse personagem muitas vezes me estranha, me reduz, me trai. Não posso controlar quem sou nos olhos do outro. E este é o cárcere: não o outro em si, mas o eu que nele me escapa.


A tradição filosófica e literária já havia tocado essa ferida antes de Sartre. Dostoiévski, por exemplo, em seus subterrâneos, nos mostra um homem devorado pela consciência de si — uma consciência que já está intoxicada pela presença do mundo. Kafka, com sua prosa abissal, cria labirintos de olhares e julgamentos, onde o sujeito é sempre culpado de algo que nunca compreende plenamente. Em O Processo, Josef K. é julgado por um tribunal que nunca se revela por inteiro — um tribunal metafísico, mas também social: o olhar anônimo e ininterrupto da burocracia, da opinião pública, da moral imposta.


No Evangelho, quando Pedro nega Jesus três vezes antes do canto do galo, é o olhar do Cristo que o atinge — e ali não há condenação, apenas verdade. É um olhar que não acusa, mas revela. A diferença entre a condenação e a revelação talvez esteja no tipo de olhar. O olhar de amor vê com ternura aquilo que é. O olhar do mundo vê com exigência aquilo que quer que sejamos. E nos dobra a isso.


Mas o olhar do outro, por mais que nos aprisione, é também aquilo que nos revela. Simone Weil, contemplando a dor do mundo, dizia que o amor verdadeiro é aquele que olha e vê o outro em sua inteireza, sem desejar possuí-lo. Esse olhar é raro. Porque o mais comum é o olhar que consome — o olhar que classifica, que domestica, que mede. E, em nosso mundo saturado de imagens e narrativas, o outro não apenas olha: ele registra, publica, comenta. O inferno ganhou redes e algoritmos. O olhar do outro já não apenas nos aprisiona; ele nos distribui, nos explora, nos vende. A existência pública é hoje uma vitrine onde cada gesto pode ser congelado e interpretado fora de contexto, sem defesa.

Sartre, no entanto, não propõe um abandono do outro. Ele constata uma condição. Estamos sempre diante dos outros, como num tribunal cujas leis mudam conforme as testemunhas. Mas isso não nos exime da responsabilidade sobre nosso ser. A angústia existencial não é paralisia; é combustível. Ela revela que o ser é projeto, não substância. Que o inferno de hoje pode ser o purgatório de amanhã, se escolhermos agir com autenticidade. Viver com os outros é inevitável. Viver para os outros é um risco. Viver segundo os outros é a morte da liberdade.

E ainda assim, não há eu sem tu. O filósofo Martin Buber, em oposição a essa solidão sartriana, propõe a relação Eu-Tu, onde o outro não é objeto, mas presença. O Tu não me reduz — ele me convoca. E me transforma não pelo julgamento, mas pela comunhão. Nesse espaço, o olhar não é inferno. É epifania. É possível que o inferno de Sartre seja apenas o reflexo de uma humanidade que ainda não aprendeu a olhar. Um mundo onde o olhar do outro é sentença, não acolhimento.


A literatura cristã oferece uma resposta poética a essa angústia. Em Agostinho, o olhar de Deus é o único que vê verdadeiramente — e vê com amor. Nele, o homem não é um objeto, mas uma alma peregrina. Em Dante, o inferno está cheio de almas que se fixaram em si mesmas, incapazes de comunhão. O inferno é o isolamento absoluto, mesmo em meio a outros. No paraíso, ao contrário, os olhares se cruzam e não se aprisionam: se iluminam. Talvez o inferno não esteja no outro, mas na nossa incapacidade de ver o outro sem medo.


A frase de Sartre, então, permanece verdadeira — mas incompleta. O inferno pode ser os outros, quando o olhar deles nos reduz a um papel, a um erro, a uma imagem. Mas o paraíso também pode ser os outros, quando o olhar deles nos permite ser — não um personagem, mas um ser humano em construção. O problema não é o outro em si, mas o tipo de espelho que ele nos oferece. Alguns espelhos deformam. Outros revelam com misericórdia.


Assim, viver no mundo é dançar sobre esse fio: aceitar que sou visto e que serei mal compreendido. E, mesmo assim, continuar sendo. A coragem existencial está em sustentar o ser diante do julgamento, sem se fechar à alteridade. O verdadeiro inferno é aquele em que escolhemos nos esconder, por medo de não sermos amados. O verdadeiro paraíso é aquele onde o outro me vê — e, apesar de tudo, me ama.


Sartre nos ofereceu um diagnóstico severo. Mas não nos legou a última palavra. Esta talvez pertença à graça, que olha sem aprisionar. Ao amor, que vê sem exigir. Ao perdão, que reconhece o erro sem o confundir com o ser. Talvez o desafio de nossa época seja este: transformar o olhar. Fazer do inferno um lugar habitável. Ou, quem sabe, redimir o espelho, para que nele possamos, enfim, ver a verdade — não a que nos condena, mas a que nos liberta.


Por Helida Faria Lima.

 
 
 

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