Entre Nebrija e Arguedas: História Secreta de uma Língua que se Quis Absoluta
- 18 de jul. de 2025
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A história do espanhol não se escreve apenas com a pena da gramática nem com a régua da filologia. Ela é traçada com o sangue da política, com o sopro da missão evangelizadora, com o ferro das espadas coloniais e com o murmúrio insistente das línguas que resistem, que sobrevivem, que ressoam sob o peso de uma imposição. A língua castelhana, elevada à condição de língua imperial, constitui-se como um dos instrumentos mais sutis e eficazes de unificação e dominação do Império Hispânico, não apenas no Velho Mundo, mas sobretudo nos vastos territórios da América. No entanto, essa unidade linguística projetada pelo império foi sempre entrecortada por vozes dissonantes, por dialetos regionais e línguas subalternizadas, por resistências que se expressam tanto na oralidade silenciada quanto na literatura insurgente.
O castelhano, nascido nos vales do norte da Península Ibérica, elevou-se, ainda na Idade Média, graças à centralidade do Reino de Castela e à figura emblemática de Alfonso X, o Sábio, que fundou, com sua corte literária e jurídica, uma verdadeira língua de Estado. Não se tratava apenas de uma cristalização linguística, mas de um projeto político e civilizacional: o espanhol, como fruto da vontade régia, tornava-se veículo de administração, de evangelização e de cultura. A Gramática de Nebrija, publicada em 1492 — o mesmo ano em que Colombo aporta no Novo Mundo — sela essa intenção: “la lengua es compañera del imperio”. Nebrija compreendeu o que muitos impérios perceberam tardiamente — que a dominação linguística é condição prévia à dominação mental, e, portanto, à consolidação do domínio territorial.
A unificação linguística hispânica, todavia, nunca foi completa nem homogênea. A própria Península Ibérica é um território de multivocalidade: o catalão com sua refinada tradição literária desde os trovadores medievais e a herança de Raimundo Lúlio; o galego-português, lírica de amor e dor nas cantigas dos cancioneiros; o basco, pré-indo-europeu, relíquia viva de um passado anterior às migrações arianas. A imposição do castelhano, sobretudo após os Reis Católicos e a posterior centralização dos Bourbons, esmaga parcialmente essas línguas irmãs, relegando-as ao doméstico, ao folclórico, ao invisível. Há uma clara hierarquização: o castelhano como língua do saber, do direito, da fé; as demais como resquícios de um mundo arcaico, a ser superado. O império castelhano não destrói essas línguas — ao menos não sempre —, mas as exila para os cantos da oralidade, da memória, da província.
Nas Américas, o espanhol chega como espada e báculo. A língua castelhana, portadora da fé tridentina e da cosmovisão europeia, é imposta aos povos originários como forma de evangelização e aculturação. Frades e missionários aprendem as línguas indígenas para catequizar, mas simultaneamente promovem o espanhol como idioma superior, racional, civilizatório. Os esforços de missionários como Bernardino de Sahagún, que escreveu em náuatle e defendeu sua preservação, não anulam o movimento centrífugo que buscava apagar a pluralidade linguística do continente em nome da unidade católica e monárquica. A língua é aqui não apenas ponte, mas arma: instrumento de apagamento da diversidade indígena e imposição de uma só narrativa.
Entretanto, a América não silenciou. As línguas ameríndias, embora dilaceradas, continuaram sendo faladas nos interstícios do poder colonial: nos mercados, nas casas, nas comunidades distantes dos centros administrativos. A resistência linguística é também uma forma de resistência cultural. Línguas como o quéchua, o aimará, o guarani, o náuatle — entre tantas outras — persistem como vozes subterrâneas, desafiando a monocromia imperial. O caso do guarani é exemplar: transformado em língua cooficial no Paraguai, ele sobreviveu não como relíquia etnográfica, mas como idioma vivo, que molda subjetividades e expressa mundos.
A literatura hispano-americana, especialmente a partir do século XIX, retorna a essa questão com vigor. O espanhol do Novo Mundo já não é mais o do conquistador: é o do mestiço, do indígena, do afrodescendente. O idioma castelhano torna-se polifônico, cheio de tensões internas, de regionalismos, de vocábulos transplantados. É o espanhol criollo, descentrado, às vezes zombeteiro, que subverte as regras da Real Academia. Escritores como José Martí, Andrés Bello, Jorge Luis Borges ou Gabriel García Márquez fazem da língua um laboratório, uma arena onde se confrontam tradição e invenção, norma e liberdade. A língua imperial é subvertida desde dentro.
Há ainda outra camada de resistência que merece atenção: a dos nacionalismos ibéricos modernos, sobretudo catalão e basco, que ressurgem com força nos séculos XIX e XX. A Renaixença catalã, por exemplo, buscou restaurar a dignidade de uma língua que nunca deixou de produzir poesia, ainda que interditada oficialmente. A luta pela autonomia linguística é aqui uma luta pela existência política, pelo reconhecimento de um povo que se recusa a ser mero apêndice da Castela imperial. Em tempos recentes, os debates em torno da cooficialidade das línguas nas comunidades autônomas espanholas mostram que a questão permanece viva: a unidade nunca foi completa, nem consensual.
Em termos linguísticos, o espanhol como língua imperial vive uma permanente tensão entre padronização e variação. A própria existência da Associação de Academias da Língua Espanhola, criada em 1951, revela essa consciência: o espanhol já não é monopólio peninsular. As variantes latino-americanas exigem espaço, reconhecimento e autonomia. O “espanhol neutro” das telenovelas ou dos dubladores é uma quimera funcional, não um reflexo legítimo da diversidade linguística. Cada variante regional carrega uma história de colonização, de mestiçagem, de resistência.
A questão, portanto, não é apenas filológica, mas ontológica. O espanhol enquanto língua imperial moldou consciências e identidades, mas foi também transformado por elas. Ele é, ao mesmo tempo, língua da opressão e da criação, do apagamento e da memória, da unidade e da multiplicidade. Ao percorrer os caminhos do Império — da Galícia a Manila, de Lima a Sevilha, de Oaxaca a Buenos Aires —, o espanhol assume faces diversas, absorve mundos, ressoa em timbres contraditórios. É a língua de Teresa de Ávila e de Rigoberta Menchú, de Cervantes e de José María Arguedas.
A memória da língua, em sua vocação imperial, não se limita à nostalgia da glória. Ela exige escuta. Escutar as línguas abafadas, os dialetos subterrâneos, os fonemas marginais. Escutar o silêncio que precede a palavra. Pois a verdadeira unidade não está na homogeneidade, mas na tensão fecunda entre diferença e reconhecimento. A língua castelhana, que um dia sonhou abarcar o mundo sob sua sintaxe régia, encontra-se hoje diante de sua própria alteridade. E é nesse encontro, nessa ferida luminosa entre o uno e o múltiplo, que reside sua grandeza e seu desafio.
A história do espanhol, afinal, é a história de uma Babel reordenada à força e reabitada com lirismo. E talvez seja justo dizer que sua vocação imperial foi traída por sua própria vitalidade — pois quanto mais se impunha como norma, mais se reinventava como variação. Se hoje ele é uma das línguas mais faladas do planeta, isso se deve menos à glória dos reis católicos do que à teimosia criativa dos povos que o moldaram — e que continuam, com seu sopro anônimo, a escrever na língua do império as suas próprias epopeias.
Por Helida Faria Lima.

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