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Entre a Comicidade e a Melancolia: O Auto da Compadecida

  • 19 de jun. de 2024
  • 5 min de leitura

Frequentemente citado como um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos, sendo um exemplo do potencial do cinema nacional para criar obras de alta qualidade e grande apelo popular, "O Auto da Compadecida", obra magistral de Ariano Suassuna, transcendeu os limites do teatro para se tornar um ícone do cinema brasileiro. Escrita em 1955, a peça é um exemplo emblemático do Movimento Armorial, idealizado pelo próprio Suassuna na década de 1970. Este movimento buscava resgatar e valorizar as raízes culturais do Nordeste brasileiro. Criando uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular nordestina, influenciando teatro, música, literatura e artes plásticas.


Antes de se tornar um filme, "O Auto da Compadecida" foi uma minissérie de sucesso exibida pela TV Globo em 1999. O sucesso da minissérie levou à adaptação para o cinema, que foi lançada no ano seguinte. A adaptação cinematográfica de "O Auto da Compadecida", dirigida por Guel Arraes e lançada em 2000, não apenas capturou a essência do texto original, mas também enriqueceu sua narrativa com uma linguagem visual vibrante e uma trilha sonora que ecoava os ritmos nordestinos. Guel Arraes, conhecido por seu domínio no uso do humor e da sátira, trouxe à vida os personagens icônicos de João Grilo e Chicó, interpretados brilhantemente por Matheus Nachtergaele e Selton Mello, respectivamente.


João Grilo personifica o arquétipo do nordestino astuto e sagaz, cuja perspicácia diante das adversidades reflete não apenas a sobrevivência física, mas também a resistência cultural frente às injustiças sociais. Chicó, seu companheiro de jornada, representa o oposto em muitos aspectos: o medroso, cuja bondade e honestidade contrastam com a malícia de João Grilo. A dinâmica entre os dois personagens não apenas impulsiona a trama, mas também oferece uma reflexão sobre valores morais e éticos em um cenário permeado pela desigualdade e pela religiosidade popular.


A ambientação no Nordeste brasileiro, com seus cenários áridos e vibrantes, não apenas serve como pano de fundo para a história, mas também como um personagem por si só. Os elementos visuais e sonoros do filme capturam a essência da cultura nordestina, destacando-se pela riqueza de detalhes e pela autenticidade na representação dos costumes locais. A trilha sonora, composta por músicas que variam de forró a embolada, complementa perfeitamente a atmosfera única do filme.


Para além de sua riqueza estética, "O Auto da Compadecida" permanece relevante por sua crítica social e sua capacidade de transcender as fronteiras geográficas e culturais do Brasil. A obra de Ariano Suassuna, adaptada com maestria para o cinema por Guel Arraes, não apenas celebra a cultura popular nordestina, mas também questiona as normas sociais e morais de forma inteligente e divertida.


Central para o sucesso do filme foram as performances memoráveis do elenco, com destaque para Matheus Nachtergaele como João Grilo e Selton Mello como Chicó.

A química entre os personagens principais ressaltou não apenas suas características individuais, mas também a dinâmica de uma sociedade marcada pela desigualdade e pela religiosidade popular. A trama envolve temas universais como a busca pela sobrevivência, a astúcia frente às adversidades e a crítica à hipocrisia moral.


Um dos momentos mais emblemáticos da adaptação cinematográfica de "O Auto da Compadecida" ocorre durante o julgamento dos protagonistas no céu. João Grilo e Chicó, após suas mortes trágicas, são confrontados com seus pecados e virtudes diante de um tribunal celestial. Este momento não só serve como um ponto crucial na trama, mas também encapsula a essência da obra de Ariano Suassuna, misturando comédia, crítica social e elementos espirituais de maneira única.


Na cena, somos confrontados com uma representação lúdica do céu, onde a burocracia celestial é parodiada de forma hilária. João Grilo, sempre o esperto, tenta argumentar a seu favor com sua habitual lábia e perspicácia, enquanto Chicó, mais tímido e consciente de seus pecados, tenta se justificar de maneira sincera. A Compadecida, figura maternal e celestial interpretada de forma marcante por Fernanda Montenegro, desempenha um papel crucial como a mediadora entre a justiça divina e a misericórdia humana, representando uma figura que transcende a rigidez das normas religiosas tradicionais.


Este momento não é apenas uma comédia espirituosa, mas também uma reflexão profunda sobre a natureza humana e suas contradições. João Grilo e Chicó, como representantes do povo nordestino, enfrentam não apenas o julgamento celestial, mas também uma crítica implícita às estruturas sociais injustas que enfrentaram em vida. A cena, portanto, não só avança a trama, mas também ressoa como uma metáfora sobre a busca por justiça e redenção em um contexto de desigualdade e dificuldades cotidianas.


A estética visual e sonora desta cena é notavelmente essencial. A representação do céu mescla elementos de fantasia e realismo mágico, com uma direção de arte que combina o esplendor celestial com detalhes humorísticos, como anjos desajeitados e uma organização celestial às voltas com seus próprios dilemas. A trilha sonora, com músicas tradicionais do Nordeste brasileiro, amplifica o tom festivo e espiritual da cena, criando uma atmosfera única que enriquece tanto a narrativa quanto a experiência sensorial do espectador.


Portanto, o julgamento no céu em "O Auto da Compadecida" não é apenas um momento cômico e espiritualmente edificante, mas também um ponto alto na habilidade de Guel Arraes de adaptar a riqueza literária de Suassuna para o cinema. Ele encapsula não apenas os conflitos individuais dos personagens principais, mas também a crítica social e a celebração da cultura nordestina que permeiam toda a obra.


Já em tema de tristeza, uma das cenas mais comoventes e tristes ocorre quando Chicó enfrenta a morte de seu amigo João Grilo. Após uma série de aventuras, trapaças e desafios, João Grilo é mortalmente ferido, deixando Chicó desamparado e devastado pela perda de seu companheiro de vida e aventuras.


Nesta cena, Selton Mello interpreta Chicó com uma profundidade emocional tocante, transmitindo a tristeza e a solidão de um personagem que, apesar de seu jeito brincalhão e covarde, encontra na amizade com João Grilo um refúgio contra as dificuldades da vida. A morte de João Grilo não apenas marca o fim de uma jornada tumultuada, mas também representa a perda de um elo vital para Chicó, que se vê confrontado com a realidade da mortalidade e a fragilidade da existência humana.


Não só a atuação comovente de Selton Mello, a direção de Guel Arraes nesta cena é magistral ao capturar a intensidade emocional do momento sem perder a essência da obra de Ariano Suassuna. A ambientação no interior nordestino, com seus cenários áridos e uma luz melancólica, intensifica a atmosfera de despedida e reflexão. A trilha sonora, que geralmente pontua os momentos dramáticos com sutileza, contribui para ampliar a carga emocional da cena, envolvendo o espectador numa experiência sensorial e emocional profunda.


Assim, a cena da morte de João Grilo em "O Auto da Compadecida" não apenas se destaca como um momento triste e emocionalmente poderoso na história do cinema brasileiro, mas também como um testemunho da habilidade da adaptação cinematográfica em transmitir os temas universais de amizade, perda e a complexidade da condição humana.


Ademais de sua relevância artística, este filme é um testemunho da capacidade do cinema brasileiro de explorar e valorizar suas próprias raízes culturais. A adaptação ajudou a consolidar a importância de valorizar e divulgar a cultura popular brasileira, influenciando outras produções e projetos culturais.


O legado desta obra cinematográfica transcende gerações, influenciando não apenas o cinema nacional, mas também a forma como a cultura popular brasileira é percebida e valorizada. Ao adaptar uma obra teatral tão querida e respeitada, combinando elementos de comédia, drama e farsa, refletindo a tradição do teatro popular nordestino e do cordel, Guel Arraes não apenas prestou um tributo ao talento de Suassuna, mas também ampliou o alcance e a apreciação desta história para um público mais amplo, dentro e fora do Brasil.


"O Auto da Compadecida" é um exemplo magistral de como a literatura, o teatro e o cinema podem se unir para criar obras que ressoam profundamente com o público e contribuem para a identidade cultural do país. Seja através do teatro, da televisão ou do cinema, a história de João Grilo e Chicó continua a encantar e provocar reflexões sobre a condição humana e as injustiças sociais, perpetuando seu lugar de destaque no imaginário coletivo brasileiro.


Por Helida Faria Lima

 
 
 

3 comentários


Membro desconhecido
20 de jun. de 2024

Sem dúvida uma obra de 🎭 Arte, filme excelente.

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Membro desconhecido
20 de jun. de 2024

A cena do filme representa o cotidiano dos nordestinos sofridos

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Membro desconhecido
19 de jun. de 2024

👏👏👏 um dos meus filmes favoritos

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