A Sombra e a Luz: Mística e Contrarreforma na Poesia Barroca Hispânica
- 18 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
No limiar entre o século XVI e o XVII, quando a Europa cristã mergulhava nas profundezas de sua crise espiritual e política, emergia na Península Ibérica uma voz poética e teológica sem par: a mística barroca, cujo fundamento perene reside na tensionada dialética entre sombra e luz. Neste horizonte, os poemas e escritos de São João da Cruz e Santa Teresa d’Ávila assumem uma centralidade paradigmática, ao esculpirem não meramente a experiência subjetiva do encontro com o Divino, mas, sim, uma verdadeira ontologia do espírito marcada pelo âmago apofático e catabático da alma e pela celebração luminosa e afirmativa da união mística. Essa dualidade — sombra e luz, ausência e presença, noite escura e morada radiante — constitui o eixo sobre o qual gira a poética da mística barroca, uma expressão erudita que sintetiza as mais profundas correntes filosófico-teológicas da Contrarreforma, tecendo um tecido simbólico de incomparável densidade hermenêutica.
São João da Cruz, discípulo fervoroso do Carmelo e mártir da experiência ascética, eleva a noche oscura del alma à condição de experiência metafísica e via sacramental. Sua poesia, marcada por um rigor ontológico absoluto, articula a noite não como mera ausência ou carência, mas como um locus privilegiado de epifania espiritual. A noite escura, longe de ser simples sombra, converte-se na via negativa por excelência, na suspensão radical de todas as potências sensíveis e intelectivas da alma, que — na ignição de uma purificação severa — se desapega da luz própria e de toda consolação para abraçar o invisível e o incognoscível. Esta experiência de kenosis espiritual reverbera as influências do misticismo apofático do Pseudo-Dionísio Areopagita, do neoplatonismo cristão e do patrístico Agostinho, cuja leitura e recepção na Espanha Tridentina são determinantes para a poética joanina.
Em sua linguagem, o poeta transcende a dicotomia convencional entre noite e dia, sombra e claridade, fazendo da escuridão um espaço sacramental onde a luz não apenas desaparece, mas se manifesta em sua forma mais pura e não mediada. O corpo e a alma experimentam um despojamento total — purificación, noche, unión — um ciclo trinário que define a jornada mística. A atmosfera da poesia de João da Cruz é saturada de simbolismo nuptial, onde o abandono doloroso da criatura na noite serve para um encontro de amor absoluto, desfeito de quaisquer mediações terrenas. A presença divina, paradoxalmente, revela-se na ausência — um tema que transgride os limites do entendimento humano e se instala na radicalidade do mistério.
Contrastando e complementando esse deserto espiritual, Santa Teresa de Jesús imprime uma marca singular na literatura mística ao desenvolver uma mística positiva que abraça a luminosidade da graça como plenitude do ser. Sua obra, estruturada sobretudo na monumental Castillo Interior, expõe a alma como um edifício cristalino, composto de múltiplas moradas cuja culminância é o encontro face a face com o Amado. Teresa, mística da morada e da luz, problematiza a experiência da união mística não na ausência, mas na presença intensificada e na comunicação transcendente que envolve o sujeito e o objeto divino numa dança hipostática.
Sua linguagem, ainda que impregnada da humildade ascética, revela uma estética de gozo e extase, em que o sofrimento, longe de ser mero peso, se converte em caminho de santificação e revelação. Os versos teresianos, impregnados de ternura e ardor, revelam a alma como um espaço em que se dá a transfiguração do desejo carnal em chama divina: “Vivo sin vivir en mí, y tan alta vida espero, que muero porque no muero.” Esse paradoxo exprime a dialética dinâmica entre a condição limitada da criatura e a eternidade da graça, bem como o processo de aniquilação do eu para a consumação da vida em Deus. Teresa inova ao integrar corpo, emoção e intelecto numa experiência integradora que, em sua afirmação, transcende o ascetismo rigorista para abraçar a alegria da comunhão.
No plano da Contrarreforma, essas experiências místicas assumem ainda um papel estratégico de resistência e renovação espiritual, articulando-se à ortodoxia romana como caminhos de reforma interior e modelos para a vivência da fé diante das ameaças protestantes e das heresias modernas. João e Teresa, ambos rigorosos na fidelidade à Igreja, esculpem uma teologia da experiência que se reveste de uma linguagem simbólica, imbricada na estética barroca, marcada pela contradição, pelo chiaroscuro espiritual e pela ambivalência entre silêncio e palavra, ausência e plenitude.
A poesia barroca da mística espanhola é, pois, o locus onde convergem múltiplos discursos: o teológico, o filosófico e o artístico. É uma escrita que se insurge contra a pretensão da linguagem de abarcar o divino em sua totalidade e, ao mesmo tempo, se faz veículo da busca incessante pela união impossível. Ela habita a fronteira entre o dizer e o calar, entre a luz e a sombra, e utiliza os paradoxos da linguagem para sugerir o inexprimível.
A dialética da sombra e da luz na poesia de São João da Cruz e Santa Teresa d’Ávila, assim, é mais que uma contraposição temática: é o espelho da experiência metafísica da alma em sua travessia do finito ao infinito. É um percurso que não apenas narra a jornada espiritual, mas que performa, no próprio ritmo e forma do verso, o movimento de desapego e encontro. Nesta tessitura, a noite escura torna-se luz oculta, e a luz da morada, sombra transitória — pois, afinal, todo encontro místico está fundado na tensão inesgotável entre ausência e presença, entre mistério e revelação.
Portanto, a poesia barroca mística não é apenas arte, mas sacramento da experiência divina: é a voz do espírito que, no silêncio da noite e no esplendor da luz, pronuncia o nome do Indizível, ensinando que a verdadeira iluminação do homem é a aceitação serena e apaixonada da sombra que o precede e o transcende. Assim, São João da Cruz e Santa Teresa, ao entrelaçarem sombra e luz, inauguram uma estética da mística que ressoa através dos séculos, erguendo-se como testemunho inquebrantável da profundidade da alma humana diante do mistério eterno.
Por Helida Faria Lima

Comentários