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A Retórica Escolástica no Discurso Hispânico: Do Silogismo ao Sussurro Cotidiano

  • 18 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

Não é possível compreender a alma da hispanidade — e tampouco a nervura profunda de sua linguagem — sem nos debruçarmos sobre a persistência do logos escolástico que, séculos após seu apogeu medieval, ainda ecoa nos sons mais banais e nos atos mais prosaicos do falar ibérico e latino-americano. A retórica escolástica, longe de ser apenas um ornamento teológico confinado aos claustros de Salamanca, Alcalá ou Coimbra, estendeu seus tentáculos invisíveis para moldar os gestos, os silêncios e as entonações do discurso cotidiano. Como um rio subterrâneo que brota inesperadamente no campo da linguagem popular, a lógica tomista foi absorvida pelo ethos de um povo inteiro, imprimindo-lhe uma forma de pensar, de narrar e de persuadir que transcende os tratados de filosofia e os púlpitos e se aloja nos modos de contar histórias, de explicar as dores, de defender as honras e até de amar.


A escolástica hispânica, tão profundamente marcada por Tomás de Aquino, não se limitou à transmissão sistemática de conteúdos doutrinais. Ela forjou um estilo — ou melhor, uma forma de inteligir o mundo — fundado na claridade da distinção, na disciplina do argumento, na hierarquia das causas e no gosto pelo rigor. Assim, o método escolástico — estruturado em quaestiones, articulado em objeciones e responsiones, e sempre propenso à clarificação exaustiva do objeto — infiltrou-se no sangue da cultura ibérica e, por extensão, latino-americana. O homem hispânico, mesmo o iletrado, herdou, por osmose civilizacional, uma maneira de pensar que desdobra as questões, contrapõe as objeções, define termos, busca a ratio subjacente. E não há cena doméstica, crônica de jornal, pregação de aldeia ou conversa de botequim que não traga, velada ou manifesta, essa herança de silogismos e distinções.


Como bem notou Américo Castro, a língua espanhola e, por arrasto, as demais línguas iberolatinas, assumem uma textura (ou melhor, uma sinfonia de densidade conceitual) que só se compreende à luz do hábito mental escolástico. A própria estrutura do espanhol castelhano — com seus gerúndios conclusivos, suas orações subordinadas generosamente encadeadas e seu gosto por adjetivações lógicas — revela a permanência de um fundo argumentativo. Quando um camponês andaluz diz com serena convicção: “No es que no quiera ir, sino que ir significaría una ruptura con lo que siempre he sido”, ele talvez não saiba que está reproduzindo, com ares de naturalidade, uma distinção entre o querer e o poder, entre o ato e a essência, como ensinaria um frade dominicano no século XIII.


Este fenômeno atinge sua expressão mais refinada na retórica sagrada do barroco hispânico, cuja glória talvez tenha sido não apenas adornar os sermões com figuras e metáforas, mas sim articular a beleza ao raciocínio. Os sermões de Vieira, escritos no Brasil sob a égide do Império Católico Hispânico, ainda que redigidos em português, pertencem ao mesmo universo mental do arcebispo hispano-franciscano Juan de Palafox y Mendoza, de Sor Juana Inés de la Cruz e de tantos outros oradores e teólogos. Neles, a lógica não se opõe à emoção; ao contrário, os argumentos se derramam em imagens, e as imagens retornam ao argumento como um espelho que refrata a luz do logos. A concatenação escolástica serve como andaime invisível para as piruetas da imaginação barroca.


Mas não nos enganemos: essa lógica não é fria. Ela é o ardor da razão posta a serviço da fé, da honra, do amor e da glória. Por isso, o discurso hispânico — em suas expressões literárias, políticas e até sentimentais — conserva o ritmo de um argumento cuidadosamente construído. A mulher que acusa o amado de traição o faz com uma enumeração de causas e efeitos, com antíteses meticulosamente dispostas e com uma conclusão que, muitas vezes, tem o peso de um juízo escatológico. O político que discursa na câmara provincial do México ou da Andaluzia não fala como um técnico, mas como um orador romano reencarnado em trajes modernos, cujo raciocínio é ao mesmo tempo sedutor e implacável. E até mesmo os bilhetes deixados nos confessionários ou os lamentos escritos em cadernos de poesia popular mantêm aquele lastro antigo de quem aprendeu — ainda que sem o saber — a dizer o mundo segundo um princípio de razão suficiente.


É nesse sentido que a retórica escolástica permanece viva como um código civilizacional. Não porque se continue ensinando a Summa Theologiae nos colégios com o mesmo fervor do Concílio de Trento, mas porque sua forma de ordenar o mundo ficou inscrita nos atos de fala e nos gestos de escrita. A gramática da alma hispânica, para usar a expressão de María Zambrano, é uma gramática de distinções, de gradações, de causas finais e primeiras. É por isso que o discurso hispânico resiste às simplificações modernas, ao culto das frases curtas e das ideias rápidas. Ele exige tempo, exige escuta, exige respiração. É um discurso de demora, de entroncamentos, de labirintos iluminados pelo lume da razão teológica.


Essa influência não se dá apenas na eloquência barroca ou nas construções poéticas, mas também no direito, na diplomacia, na pedagogia e na política. Mesmo os escritos de Simón Bolívar, impregnados de iluminismo, trazem uma cadência argumentativa que lembra mais os discursos da Contra-Reforma do que os panfletos franceses. O mesmo vale para José Martí, cuja prosa nervosa e altiva carrega o peso de um vocabulário que quer persuadir não só pela beleza, mas pela verdade.


Por fim, não é possível ignorar que a tradição retórica escolástica se reconfigura na América Latina como resistência. Diante do pragmatismo norte-americano, das sínteses apressadas e da técnica sem logos, o falar hispânico é, muitas vezes, uma recusa a abdicar da complexidade. É um modo de afirmar que a linguagem ainda pode ser um lugar de verdade, que a razão ainda pode ser tecida com paixão, e que o mundo — por mais fragmentado que esteja — ainda pode ser pensado a partir de princípios.


A retórica escolástica, portanto, não é um fóssil. Ela é um organismo vivo que pulsa na fala do camponês mexicano, no sermão do padre andino, na carta de amor da sevillana, na proclamação do político criollo, e até mesmo na melodia pungente do bolero, que, ao nomear o amor perdido, recorre — ainda que sem o saber — à lógica do lamento que já ressoava nas abadias de Ávila. Nessa continuidade invisível, entre o púlpito e a praça, entre o argumento e o suspiro, revela-se a permanência da alma escolástica no verbo da hispanidade.


Por Helida Faria Lima.

 
 
 

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