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A Música Pentecostal Brasileira, Uma Entrevista com Álvaro Tito

  • 1 de jul. de 2024
  • 9 min de leitura

Atualizado: 2 de jul. de 2024

Filho de Jorge Severiano e Olindina Ramos, Álvaro Tito, nascido em 18 de junho de 1965, no Rio de Janeiro, é muito mais que um músico; é uma figura emblemática no cenário da musica religiosa nacional. Álvaro não apenas canta, mas também arranja, compõe e domina diversos instrumentos. Seu talento excepcional não só o consagra como precursor, mas também como um influente, multifacetado e dedicado artista que moldou o cenário musical cristão (sobretudo pentecostal) no Brasil.


Em 1981, você lançou seu primeiro álbum, "Meu Ser para Cristo". Quais foram os desafios e as emoções que você enfrentou ao lançar esse trabalho com apenas 16 anos?

Gravar o primeiro álbum foi um sonho de infância, começado aos seis anos e concretizado dez anos depois. O processo foi difícil, com muitos nãos e decepções. Em 1981, com a ajuda do mentor Jorge Barros, lancei o álbum pela gravadora. Jorge Barros me guiou e ensinou como se comportar na indústria musical. O álbum superou minhas expectativas, com a participação do renomado maestro Karam. O maestro Karam escrevia arranjos para grandes nomes da música brasileira, incluindo Tom Jobim, Fafá de Belém e Gal Costa. Olhando para trás, vejo que Deus não só cumpriu suas promessas, mas superou minhas expectativas.


E em que momento você sente que suas músicas e composições passam a integrar a identidade nacional brasileira, sobretudo no contexto religioso?

Nos anos 90, a música evangélica no Brasil passou por uma transformação significativa. Ozeias de Paula foi um dos pioneiros dessa mudança ao lançar o álbum "Entrei no Templo" em 1977, influenciado pela estética musical norte-americana, como Frank Sinatra e Tony Bennett. Esse álbum trouxe novos arranjos e um estilo diferente, incorporando composições de Edson Coelho, o que causou certa controvérsia entre os evangélicos tradicionais. E eu nascido em 1965, cresci ouvindo black music e fui influenciado por essa diversidade musical. No primeiro álbum, "Meu Ser para Cristo", lançado em 1981, refleti essa mistura de influências. E continuei a evoluir minha música, ganhando mais liberdade criativa com o álbum "Deus Transforma" em 1984, e eventualmente com "Não Há Barreiras" em 1986. Essa fase marcou uma contribuição significativa para a música gospel no Brasil, influenciando novas gerações e artistas subsequentes, e acredito que seja por isso que o pessoal diz que meus álbuns têm uma parcela de contribuição na estética musical brasileira.


Sabemos que o Brasil é um país de mistura. Aqui mistura-se samba com jazz e então forma-se a bossa nova. Da mesma forma, você, em sua capacidade criativa, desenvolveu um estilo musical singular, mesclando elementos de jazz, blues e gospel. Não considera que essa originalidade e habilidade de integrar variados estilos musicais seja uma característica inerente à essência cultural brasileira?

Sim, apesar de que em algumas fases da história, até poderia dizer história recente, o Brasil vem abrindo mão desse vanguardismo, assim, e incorporando coisas externas, o que é natural. Eu me sinto também alguém que teve influência externa, evidente, mas abrir mão dessa originalidade, a meu ver, não é de todo positivo, porque realmente o Brasil tem uma capacidade assim, é uma riqueza harmônica, a capacidade de combinar. Que os próprios músicos internacionais, os grandes músicos internacionais, eles batem continência e se curvam diante da capacidade, diante da versatilidade e da originalidade brasileira. Então, eu vejo a minha nação, o meu país, a música em nosso país com uma capacidade tremenda, tanto que ela é consumida fora. Quando a gente pega, por exemplo, eu estou falando em termos gerais, eu não estou colocando música evangélica como música. Djavan, Vinícius, Toquinho, Tom Jobim, João Gilberto, essa galera, esse pessoal. Eles são conhecidos no mundo todo, no mundo todo. E são brasileiros, entendeu? Então, Frank Sinatra gravou canções brasileiras, né? Tony Bennett. Então, assim, artistas que estão na história considerados imortais, né? O Charles Aznavour, que era um artista francês, europeu. Então, essa galera já gravou e regravou, Peppino di Capri também. São artistas internacionais que se perpetuaram na história e que se renderam a originalidade, a capacidade brasileira de produzir música. Então, é algo que a gente não pode ou não deve abrir mão. Eu acho que é positivo a gente olhar o que está acontecendo na cena como um todo, né? Ver o que é bom e tal, mas não perder a originalidade, isso é importante.


Em um de meus escritos, comento que a rádio representa muito na vida do brasileiro, sobretudo em termos de influência musical. Na música popular brasileira temos Djavan (que você acabara de citar), cuja sua musicalíssima mãe lhe ensinava as primeiras canções que vinham do rádio: Orlando Silva, Ângela Maria, Dalva de Oliveira lá das ondas da Rádio Nacional no Rio. E, mais próximos no sotaque e na geografia, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, aquela música que ele ouvia nas ruas e feiras de Maceió, e no serviço de alto-falantes na praça. No contexto gospel, temos você, que fora influenciado pelo que ouvia na Radio Copacabana, como Luiz de Carvalho e Feliciano Amaral, e isto lhe incentivou ainda mais a cantar quando criança. Enquanto precursor da música gospel, como descreve essa relação intrincada entre a rádio e o Brasil?

Como posso explicar isso? Porque eu vivenciei tudo isso. Eu sou daquela época, quando comecei a me entender como gente no contexto musical evangélico, tive acesso a Jair Osana, Jair Pires, Josué Barbosa Lira, Luiz de Carvalho, Feliciano, como você mencionou com muita propriedade, e também Edson e Telma, que começou em 1969, além de Davi e Beatriz. Isso no cenário de São Paulo e Rio de Janeiro. Citei apenas alguns, porque a lista é vasta. A musicalidade e os artistas daquela época em São Paulo, como Nicolet e Jorge Araújo, e do Nordeste, como Armando Filho e Denise, faziam uma música considerada conservadora, independentemente do segmento evangélico, fosse batista, presbiteriano, etc. O grupo Novo Alvorecer e, um pouco depois, o Prisma, também se destacaram. Eles faziam música que, embora conservadora na estética, refletia a fé e os relacionamentos vividos no contexto de igreja e religião. Naquela época, minha geração não podia ouvir MPB, que era chamada de modinha, nem música secular. Imagine eu, num contexto pentecostal, com meu pai pastor e toda minha família na Assembleia de Deus. Não podíamos jogar bola, assistir televisão, nem ver filmes da Disney. Absolutamente nada disso. Tudo isto era considerado coisa do inferno. Mas, entre quatro paredes, eu ouvia Jackson Five, andava com cabelo Black Power e escutava muita rádio, fez parte da minha vida.


E como era fazer música numa época em que a igreja limitava tanto a criatividade musical dos compositores e dos cantores? Mesmo sabendo que, todo conhecimento vem do Senhor.

Você colocou com propriedade, também. Não era fácil, porque isso é cultural. As pessoas que trouxeram o conhecimento evangélico para o Brasil, como Daniel Berg e Gunnar Vingren, que eram suecos, influenciaram muito o segmento pentecostal da Assembleia de Deus. Eles foram impactados pelo movimento pentecostal na América antes de virem para o Brasil, e isso moldou o formato das composições aqui. Nos EUA, existe uma dicotomia entre música cristã dentro das igrejas e uma música mais "light" que, mesmo sendo popular, é considerada gospel, como "Amazing Grace" e "Oh Happy Day". Qualquer um pode cantar essas músicas, desde Aerosmith até Stevie Wonder. No Brasil, não é assim. Aqui, não temos essa compreensão avançada do que é divino, mesmo que seja embrulhado numa estética secular. No Brasil, há uma resistência maior, apesar de sabermos que o adversário, Satanás, não cria nada, apenas copia e representa o mal.

E mesmo músicas que não falam diretamente de Jesus Cristo ou da igreja, são vistas de forma diferente aqui no Brasil. Nós, brasileiros, tendemos a classificá-las como não divinas, especialmente se não são cantadas por artistas evangélicos. No entanto, a melodia é divina e não de Satanás. O que importa é o propósito com que a música é feita. Deus é dono de tudo, e ritmo é apenas matemática. Culturalmente, herdamos a ideia da colonização de que certas músicas são de Deus e outras do diabo, que algumas são ungidas e outras não.


Já lhe é sabido que escrevo, e mais uma vez, em um de meus escritos, falo acerca do pioneirismo pentecostal no evangelismo brasileiro. Em que igrejas como Assembleia de Deus e Deus é Amor se destacam por pregar o evangelho a toda criatura, em lugares mais remotos e afastados dos centros urbanos, em presídios e praças de drogas. Contudo, sendo membro da Assembleia de Deus no Brasil, quais foram suas mais marcantes experiências de evangelismo em lugares que costumam ser negligenciados pela sociedade, como casas de detenção, comunidades e periferias?

Suas perguntas são muito pertinentes, tem muita propriedade. Em diversos podcasts que fiz e entrevistas que concedi, estas coisas não me eram perguntadas. Mas bom, recentemente, minha esposa e eu tivemos a oportunidade de ministrar no presídio de Bangu. Era para ser um culto das oito da manhã até às dez, mas o mover de Deus foi tão poderoso que tanto a liderança do presídio quanto os detentos quiseram prolongar o culto. Inicialmente, eu deveria apenas cantar, mas o pastor da igreja me pediu para trazer uma palavra, e eu aceitei. Deus nos conduziu a Jó 14:7, e ministrei por cerca de 20 minutos após cantar algumas canções. O que Deus fez ali nos impactou profundamente. O culto foi tão bem recebido que fizemos uma segunda sessão, das dez e meia até o meio-dia, e os detentos não queriam que parasse. Essa experiência aconteceu em dezembro, e devido à repercussão, já recebemos outros três convites para ministrar em diferentes pavilhões. O secretário de segurança até nos parabenizou pelo impacto positivo. No Rio de Janeiro, é comum haver eventos como esse, dado o número de comunidades na cidade. Então, nas comunidades, hoje mesmo, por exemplo, nós estamos olhando o contexto atualizado de nossa agenda, chegaram para nós quatro convites, né? Quatro agendamentos para quatro comunidades, nós realizaremos quatro eventos. Então, assim, e o contexto de segurança do Rio, ele é muito traval, porque ele é muito delicado, né? Porque o Brasil todo olha o Rio de Janeiro de uma forma muito delicada nessa questão de segurança, porque essa questão tem sido calcanhar de Aquiles dos governos que se sucedem aqui no estado. Então, assim, e quando a gente vai, o que a gente vê é que os caras são filhos de cristãos, filhos de crentes, nascidos na igreja. E tu pensa o que? Quando a gente começa a cantar, com a banda, a banda da introdução, tal, todo mundo, né, tira as defesas e coloca no chão e começa a cantar. Criados na igreja. Então, todas essas experiências, Helida, essas coisas, conforme eu te falei, eu falei pra você, vão se somando ao longo da nossa trajetória e isso vai cristalizando em nós a certeza de que o poder de Deus e o Chamado transcende a arte. O objetivo, ele leva o contexto artístico, porque o alvo são vidas. Uma coisa é eu utilizar a minha arte para proporcionar momentos de alegria, momentos de felicidade, momentos de prazer, top. Deus não nos fez para termos uma vida infernal, evidentemente que não. Só que há um contexto a mais, além simplesmente do contexto do entretenimento. Há algo que carrega o contexto artístico, com todos os somatórios, conduzindo para um objetivo maior, que é, além de alegrar, felicitar, dar prazer, satisfação, felicidade: libertação verdadeira. Então, quando eu percebo que toda essa trajetória, todo o talento, tudo aquilo que foi construído é canalizado pra impactar vidas.. E tem mais, você Helida, está me perguntando, mas não é toda a pessoa, não é todo entrevistador que aborda este aspecto. E Deus está no controle de tudo. Alguém vai ouvir, vai ver, sabe? Essa sua pergunta, as minhas respostas... E alguém vai parar para refletir, porque a nossa vida tem que ser uma reflexão, não é? Não é só o oba oba, né? Tudo faz parte, rir, que legal, que maneiro, mas tem aquele momento que a gente, né? Peraí, tem a virada de chave, não é? Sempre tem. Em mais dia ou menos dia, em determinados aspectos, tem a virada de chave nesse aspecto.

De repente um dia antes teve um show do Sorriso Maroto com toda aquela estrutura, e aí o pessoal aproveita toda aquela estrutura pra botar um dia do Evangelho com o dia gospel e tal, e a gente vai com a banda e cantamos "eu sei, alguém te machucou talvez, é assim a gente nem prevê". Aí o cara "caramba, isso é música gospel, caramba, eu não pensava que fosse assim não", aí o pessoal vai lá no YouTube e tal, pesquisa nossa música e aí Deus começa a ministrar, que é o Espírito que convence do pecado da justiça do juízo, né? Então, o resto é com o Espírito Santo de Deus. Porém, esse contexto que você colocou, Helida, é extremamente pertinente e tem tudo a ver com o quesito trajetória de alguém, de um artista compromissado com as coisas de Deus, O Reino. De chegar no detento e dizer que há esperança por causa do Evangelho. É assim que eu procuro enxergar, é assim que eu procuro ver, porque eu não me perco, pelo menos no quesito até onde eu posso controlar, que nem a gente se conhece, nem mesmo a gente, só o Espirito Santo que conhece a gente, mas até onde eu posso me compreender, eu olhando assim dessa forma, eu não me permito achar que sou algo de extrema relevância, além do que aquilo que Deus permite que eu seja.




 Álvaro Tito em 1991, na sua coletânea "Grandes Momentos"


Se Kirk Franklin começava suas primeiras aulas de piano aos quatro anos de idade e aos onze anos já liderava o coral adulto da Mt. Rose Baptist Church; Álvaro Tito, igualmente surpreendente, ao iniciar sua carreira no início dos anos 80, já trazia na bagagem diversos troféus amealhados dos concursos musicais patrocinados pelas igrejas no período infância-adolescência. E partir do LP Não Há Barreiras (1986), o próprio Álvaro arranjava e produzia musicalmente seus fonogramas, além de executar a bateria.


Entrevistado: Álvaro Tito. | Entrevistadora: Helida Faria Lima. | Data: 27/06/2024.


 
 
 

6 comentários


Membro desconhecido
02 de jul. de 2024

Referência de infância, como é bom ler esse riquissimo conteúdo, lógico as perguntas foram mas que pertinentes para tais respostas sábias, parabéns Helida orgulho de ti, tão nova porém, uma maturidade enorme.

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Membro desconhecido
02 de jul. de 2024

Que entrevista maravilhosa! Muito bom poder ler um conteúdo tão agregador e de tamanha cultura. Parabéns à entrevistadora por buscar a informação muito rica através de suas perguntas. É sempre bom nos lembrarmos que no Brasil há muita riqueza cultural e musical e que o Espírito Santo segue agindo conforme a vontade de nosso Deus.

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Membro desconhecido
02 de jul. de 2024

Deus sempre mostra através dos seus escolhidos sua sabedoria

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Membro desconhecido
01 de jul. de 2024

Autor riquíssimo em conhecimento musical, parabéns pela entrevista não conhecia Alvaro Tito

Que venha mais entrevistas como essa

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Membro desconhecido
01 de jul. de 2024

Particularmente eu não conhecia Álvaro Tito, mas fiquei impressionada com tamanha desenvoltura de entrevistado e entrevistadora.

Com certeza vou pesquisar mais sobre ele, um homem muito sábio.

Parabéns por nós proporcionar entrevistas e textos inspiradores.

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