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A Liturgia do Abismo: O Barroco Espanhol como Alma da Hispanidade

  • 17 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura

O Barroco espanhol não se configura apenas como um estilo artístico ou um floreio retórico que adorna, com grandiloquência, a superfície da expressão ibérica no século XVII. Ele é, sobretudo, um abismo ressoante — um eco das convulsões interiores que agitam a alma hispânica quando confrontada com o colapso de suas promessas imperiais e a vertigem do sagrado. Mais que datável, o Barroco é uma pulsação ontológica da hispanidade: não um fenômeno que passa, mas um estado que permanece, em sua dor e em sua glória, como cicatriz viva no corpo do mundo ibérico. A hispanidade, nesse sentido, não é gerada apenas pela conquista, pela cruz ou pela coroa, mas por um delírio estético que transforma contradições históricas em linguagem; um delírio que converte o sofrimento em arte, e a angústia, em forma.


Este delírio barroco nasce da fratura e da fidelidade: fratura histórica de uma Espanha exaurida, que assiste à decadência política corroer-lhe os alicerces, e fidelidade teológica a um catolicismo que, após Trento, exige não apenas ortodoxia, mas êxtase. A Espanha torna-se guardiã da Verdade, mas essa guarda se faz sob um céu obscurecido pela dúvida e pela decomposição da unidade medieval. É dessa tensão que irrompe o Barroco — como um clarão que ilumina o abismo sem dissipá-lo. No gesto barroco, a forma se contorce, não por capricho, mas por necessidade: a beleza não basta mais; ela deve chorar, sangrar, redimir. É nesse espírito que a arte se transmuta em sacramento da contradição.


A estética clássica, herdeira da medida e do equilíbrio, cede lugar a uma estética da perturbação. O mundo já não é um cosmos transparente, mas um teatro de sombras onde a verdade se oculta sob véus de retórica. A linguagem, por conseguinte, deixa de ser ponte para tornar-se labirinto: dizer passa a ser ocultar, e ocultar, uma forma mais alta de revelação. Pedro Calderón de la Barca, ao dramatizar a efemeridade da existência em La vida es sueño, cria não apenas uma fábula teológica, mas uma liturgia cênica do desengano. O palco é púlpito, e a dúvida, sacramento. A palavra barroca é, aqui, oração ferida — não destinada a clarear, mas a transfigurar.


Luis de Góngora, com sua tessitura verbal intrincada, eleva o castelhano a uma espécie de latim visionário — impuro, sim, mas esplendoroso como um relicário de enigmas. Sua linguagem não guia, desorienta; não consola, fascina. Las Soledades não se lêem — ressoam, como uma missa dita em idioma desconhecido, onde o sentido não se alcança, mas se intui. Já Francisco de Quevedo, ao contrário, cava com sua pena as sepulturas do mundo. Seu conceptismo não edifica catedrais, mas revela seus alicerces corroídos. Nele, o barroco é desespero lúcido — olhar que perscruta as ruínas com a precisão de um cirurgião da alma. Góngora é o ofício da opacidade; Quevedo, o ofício da decomposição. Ambos, porém, são vultos de uma mesma visão agônica: o verbo como campo de batalha entre a fé e o nada.


Mas é nas Américas que o Barroco espanhol realiza sua mais pungente transfiguração. Ao encontrar as culturas indígenas, os rituais ancestrais e os mundos simbólicos da terra conquistada, o barroco ibérico se refracta, multiplicando seus signos em espelhos inesperados. A arte colonial não copia, transubstancia. A igreja andina ou mexicana não imita a catedral europeia: a reinventa à luz de um sol mítico, à sombra de deuses vencidos que ainda respiram sob os altares cristãos. O barroco americano é sincretismo e resistência, é ouro e sangue, é o esplendor imposto que se transmuta em expressão própria. Em Sor Juana Inés de la Cruz, o barroco torna-se, simultaneamente, espada e espelho. Sua escrita desafia os limites impostos à mulher e à colônia, fundindo erudição escolástica, mística espanhola e astúcia novohispânica numa prosa que é teologia e combate, poesia e insurreição.

Assim se percebe que a unidade da hispanidade, se existe, é de natureza estética e espiritual, e não meramente política ou linguística. É uma unidade de sofrimentos compartilhados e formas transfiguradas, de dogmas vividos em carne e ouro, de liturgias que celebram tanto a eternidade quanto a morte iminente. A América barroca, com seus altares flamejantes e sua retórica excessiva, é herdeira legítima de uma Espanha que já sangrava em seu próprio tempo — e que, ao sangrar, soube converter sua agonia em arte.


Por isso, compreender o barroco espanhol é descer às entranhas da alma hispânica — alma dilacerada entre a certeza da fé e o terror do silêncio divino. A forma barroca não embeleza: ela geme. Sua beleza não é triunfo, mas estigma. Se o barroco se mascara, não é por vaidade, mas por pudor de mostrar a nudez da alma. É uma forma que teme o ídolo porque anseia pelo ícone; que se enfeita, não para brilhar, mas para esconder sua dor com dignidade. Nessa estética do excesso reside uma teologia do mundo caído: o esplendor como resposta ao desamparo, a forma como súplica, a arte como esperança desesperada de redenção.


O barroco espanhol, enfim, é o sacrário onde a hispanidade guarda sua memória em estado de exaltação. Mais que ornamento, é uma epistemologia do abismo. Mais que estilo, é um destino. E enquanto houver uma cúpula dourada que resplandece sobre os Andes, uma prosa que murmura sua agonia nos claustros da mística ou um poema que oscila entre o verbo e a lágrima, o barroco permanecerá — não como passado, mas como presença vibrátil, sombra fulgente do verbo encarnado na história.


Por Helida Faria Lima.

 
 
 

1 comentário


Membro desconhecido
17 de jul. de 2025

A ideia do barroco como forma que geme, como teologia do abismo, me marcou profundamente! Nota mil

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