A Literatura como Matriz Histórica e Epistêmica da Protogermânica; A Lei de Grimm e a Função da Tradição Narrativa na Constituição das Línguas
- 8 de jul. de 2025
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A menção aos Irmãos Grimm suscita, para a sensibilidade comum, reminiscências de fábulas primevas, povoadas por florestas de sombras arquetípicas, lobos de intenções disfarçadas e donzelas de candura resplandecente. Tais narrativas, embora encerradas sob o selo do imaginário infantil, carregam, contudo, a dignidade de relíquias civilizacionais. Reduzir a monumental obra de Jacob e Wilhelm Grimm ao escopo do folclore seria grave empobrecimento de seu legado, que se estende para além da literatura, penetrando os domínios da filologia histórica, da linguística comparada e da constituição das ciências humanas do século XIX. Em verdade, os Grimm foram artífices de uma consciência filológica germânica que não apenas colecionou palavras, mas lhes rastreou o sangue antigo — e foi nesse labor que Jacob Grimm concebeu o que a história da linguagem consagrou sob o nome de Grimm’sche Lautverschiebung (a chamada Lei de Grimm), marco inaugural da sistematização científica das transformações fonéticas que engendraram as línguas protogermânicas a partir do tronco indo-europeu.
A Lei de Grimm, sob sua formulação clássica, consiste na observação de um deslocamento fonético regular e previsível, segundo o qual, por exemplo, as plosivas surdas indo-europeias (p, t, k) evoluem para fricativas surdas (f, θ, h) nas línguas germânicas. Este fenômeno, longe de ser acidental ou espasmódico, revela uma regularidade subjacente, uma lógica invisível que rege o devir das línguas naturais. Ora, não se trata aqui de uma intuição meramente teórica, mas de uma descoberta ancorada na escuta atenta dos testemunhos linguísticos conservados na literatura oral: provérbios, cantigas, fórmulas mágicas, contos populares. Os dados que possibilitaram a formulação da referida lei não emergiram de um latifúndio linguístico abstrato, mas dos sedimentos vivos da memória coletiva — precisamente daquilo que, sob o nome de “literatura popular”, os Grimm se propuseram a recolher, fixar e interpretar.
Dessa constatação advém uma inversão de paradigma com profundas implicações epistemológicas: a literatura, mesmo (e sobretudo) em sua forma oral, precede e estrutura a língua enquanto objeto de análise científica. Não é a linguagem gramaticalizada, codificada e sistematizada que funda a literatura, mas é esta — em sua rudeza arcaica e em seu ritualismo reiterativo — que conserva os vestígios da linguagem ancestral, constituindo-se, pois, como arquivo primeiro e como memória fonológica das línguas em gestação. Aquilo que chamamos de língua não é senão a abstração técnico-científica de um fenômeno profundamente humano, cuja mais antiga expressão se deu no ritmo, no mito, na fabulação. E é justamente por meio da escuta desse universo literário primevo que Jacob Grimm logrou aceder às estruturas invisíveis que ligam o sânscrito ao gótico, o latim ao antigo alto-alemão, o grego homérico ao inglês arcaico.
A literatura oral, na condição de “fóssil vivo”, como lhe chamou Milman Parry, conserva elementos arcaicos que a língua viva há muito já descartara. A repetição, a métrica, a cadência e os arquétipos narrativos não são apenas recursos poéticos — são mecanismos de preservação linguística. Por isso, a Lei de Grimm só pôde ser formulada porque houve, antes, a escuta reverente do que o povo, séculos após séculos, ainda contava, ainda cantava, ainda murmurava nas encruzilhadas da memória. A literatura, neste sentido, não é um ornamento da língua: é sua própria pedra de fundação.
Conclui-se, pois, que afirmar ser a literatura anterior à língua — ao menos enquanto esta última é compreendida sob os rigores analíticos da ciência — não constitui licenciosidade poética, mas rigorosa constatação filológica. Antes que o logos se deixasse aprisionar nas formas da gramática e da lógica, ele se fez carne no mito e na canção. A linguagem, enquanto fluxo vital, manifestou-se primeiramente na tessitura simbólica dos contos, nas fórmulas litúrgicas do sagrado, nas epopeias murmuradas junto ao fogo ancestral. Os Irmãos Grimm, ao conjugarem erudição filológica e sensibilidade poética, revelaram essa verdade fundacional: que a linguagem, para ser compreendida em sua gênese, deve ser ouvida no seu murmúrio originário — e este murmúrio é, invariavelmente, literário. A Lei de Grimm, nascida do seio da literatura oral, é prova cabal de que a língua, como objeto de ciência, é filha da palavra narrada.
Essa precedência da literatura sobre a língua revela, ainda, a falácia de conceber o idioma como sistema fechado, homogêneo e estéril em sua autonomia. A linguagem nasce e se transforma não nos compêndios gramaticais, mas na pulsação orgânica das comunidades humanas que contam histórias, nomeiam o mundo, partilham experiências e transmitem sentidos. A língua, em sua dimensão mais profunda, é ato de memória e de invenção simultaneamente — e é na literatura, sobretudo naquela que atravessa a oralidade popular, que esse duplo movimento se realiza com maior potência. Por essa razão, toda tentativa de estudar a morfologia e a fonética de um idioma sem lançar mão da escuta literária — ainda que arcaica, ainda que marginal — estará sempre condenada à esterilidade analítica.
Ademais, a própria concepção de proto-língua, categoria fundamental da linguística histórica, não poderia ter emergido senão pelo testemunho dos textos, mesmo quando estes se apresentam de forma fragmentária, cifrada ou impregnada de fabulário. A hipótese do protogermânico — matriz da qual se desdobrariam o alto-alemão antigo, o nórdico antigo, o inglês anglo-saxão, entre outros — repousa sobre um trabalho quase arqueológico de reconstrução, no qual a literatura não é mera ilustração, mas fundamento. Não se reconstrói uma língua originária sem atentar ao modo como os povos antigos narravam o nascimento do mundo, a genealogia dos deuses, as façanhas dos heróis ou os temores da morte. É nesses contos primevos que se enraíza a gramática oculta das línguas vivas.
Jacob Grimm, consciente dessa interdependência entre mito e morfema, entre fábula e fonema, jamais tratou sua filologia como disciplina fria e despida de alma. Ao contrário, seu método filológico partia de uma profunda veneração pelo espírito do povo (Volksgeist), conceito romântico que concebia a língua como emanação coletiva de uma alma popular, histórica e invisível. Esse espírito — que se manifesta na literatura tradicional, na canção ancestral, na fala do camponês e na oração da anciã — não apenas “fala” a língua, mas a cria, a molda, a consagra. É nessa confluência entre estética e filologia, entre o sensível e o sistemático, que a Lei de Grimm adquire não apenas valor descritivo, mas estatura ontológica: ela diz algo não apenas sobre o som, mas sobre o ser.
A partir disso, percebe-se que a ciência da linguagem, quando destituída de sua raiz literária, corre o risco de se tornar disciplina mutilada. Não por acaso, os grandes linguistas do século XIX e início do XX — como Grimm, Rask, Bopp e Schleicher — foram, em alguma medida, homens de letras, imersos tanto no estudo das formas quanto na contemplação dos significados. A interseção entre a literatura e a linguística não é, portanto, fruto de mero acaso histórico, mas de uma necessidade estrutural: o idioma só se revela em profundidade quando o verbo se faz narração, quando o som se encarna na história. O logos puro, abstraído de sua concretude narrativa, torna-se espectro, cifra sem carne, palavra sem mundo.
Por fim, reconhecer que a literatura funda a língua, no sentido mais originário e profundo, implica rever também a maneira como se ensina, se aprende e se transmite o idioma. A pedagogia da linguagem que ignora a força formativa do mito e do conto trai, em última instância, a natureza mesma do que busca ensinar. O verbo humano, antes de ser conjugado, foi cantado. Antes de ser classificado, foi vivido. E os Irmãos Grimm, ao recolherem o sopro das antigas histórias que os camponeses da Alemanha ainda murmuravam ao cair da noite, perpetuaram não apenas um patrimônio cultural, mas forneceram à ciência da linguagem o próprio húmus de onde ela poderia germinar. A linguagem nasce do encantamento; e a ciência da língua, se deseja permanecer viva, deve beber da fonte inesgotável da palavra narrada.
Por Helida Faria Lima

Acho q vc conseguiu, antes de tudo, trazer uma boa profundidade teórica pro texto. Ficou mto bem sustentada sua tese.
Vc tb demonstrou uma capacidade de síntese interdisciplinar q eh mto boa.