A Invenção da América: Crítica e Glória na Obra de Octavio Paz e Edmundo O’Gorman
- 18 de jul. de 2025
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A invenção da América não pode ser compreendida como um mero evento datado no calendário ocidental, um ponto fixo na linha do tempo que se limita à chegada dos europeus ao Novo Mundo em 1492. Antes, trata-se de um processo complexo, multifacetado e duradouro, cuja ressonância ecoa muito além das fronteiras territoriais, adentrando as esferas simbólicas, culturais e epistemológicas que moldam a identidade do continente. Nesse universo de paradoxos e contradições, emergem os olhares profundos de dois pensadores mexicanos que, com suas obras magistralmente construídas, inauguram um debate intelectual de grande magnitude: Octavio Paz e Edmundo O’Gorman. Ambos, em suas reflexões, examinam a gênese da identidade hispano-americana não como uma narrativa homogênea e pacífica, mas como um território de tensões, marcado pelo embate entre a imposição cultural dos conquistadores e a resistência criadora dos povos originários e africanos trazidos à força. Para esses autores, a América é simultaneamente fruto da violência histórica e um espaço fecundo de síntese civilizatória, uma invenção que carrega a glória e a crítica, o encanto e a desilusão, a máscara e a revelação.
Octavio Paz, poeta e ensaísta, uma das vozes mais contundentes da modernidade latino-americana, mergulhou na alma do continente com uma sensibilidade que combina a filosofia existencial, a mística e o lirismo mais profundo. Em “O Labirinto da Solidão”, obra seminal para compreender a condição mexicana e, por extensão, a latino-americana, Paz não busca consolar o leitor com respostas fáceis, mas confrontá-lo com a crueza da experiência histórica e cultural. Para ele, a identidade americana é um ser inquieto e fragmentado, um labirinto de silêncios e máscaras onde o sujeito oscila entre o desejo de pertencimento e a recusa do outro que oprime. A conquista ibérica, com seu poder simbólico e real, não apenas subjugou terras e corpos, mas colonizou almas, instaurando uma condição de isolamento existencial. Essa “máscara mexicana”, que se torna metáfora da identidade latino-americana, revela o dilema de um povo que precisa ocultar suas origens para sobreviver, que vive em tensão entre a nostalgia de um passado indígena e a adaptação forçada a uma cultura europeia dominante.
Todavia, a melancolia de Paz não se limita a uma denúncia, pois ele percebe na própria fragmentação do continente o potencial de uma criação original. O barroco, estilo que atravessou a cultura hispânica, reaparece nas suas páginas como uma expressão da complexidade cultural da América Latina, um estilo de vida e pensamento que conjuga luz e sombra, alegria e desespero, ordem e caos. A língua espanhola, na América, carrega em si essa ambivalência, capaz de expressar o duplo sentido, a ironia e a profundidade da experiência americana. Inspirado por tradições místicas, especialmente as de San Juan de la Cruz e Santa Teresa d’Ávila, Paz enxerga a “noite escura da alma” da América como um estágio necessário para a conquista da luz, uma passagem dolorosa que abre caminho para a construção de uma identidade que não é imitação, mas criação. O “ser labirinto” do continente torna-se, assim, uma metáfora potente para a condição de quem vive numa terra marcada pela perda, pelo deslocamento e pela reinvenção constante, uma condição que é ao mesmo tempo um fardo e uma promessa.
Edmundo O’Gorman, por sua vez, propõe uma revolução na compreensão historiográfica do fenômeno da “descoberta” da América. Em sua obra monumental “La invención de América”, ele desloca o enfoque tradicional para revelar que a América não foi simplesmente encontrada por Cristóvão Colombo ou por outros navegadores europeus, mas sim “inventada” como uma construção intelectual, discursiva e política. Essa invenção se deu por meio de um processo que transformou o continente, até então desconhecido para os europeus, em um objeto de conhecimento que serviria de base para a colonização, a exploração e o estabelecimento de novas ordens sociais. Para O’Gorman, o ato da “descoberta” é, na verdade, um ato de imposição cultural que cria uma nova ontologia, um novo sistema de significados e hierarquias que apagaram, silenciaram e submeteram as múltiplas civilizações indígenas que já habitavam o território há milênios.
O’Gorman lança luz sobre a dimensão epistemológica desse processo, destacando a violência simbólica que acompanha a criação da ideia da América como “Novo Mundo”. A história oficial, tal como foi formulada a partir das narrativas europeias, naturalizou essa invenção como fato consumado e incontroverso, tornando invisível a pluralidade e a complexidade das experiências pré-colombianas. Ele dialoga com os pensamentos do historicismo crítico, especialmente com Benedetto Croce e Karl Mannheim, para demonstrar que a história não é um relato objetivo, mas uma construção contingente, um produto da cultura e das ideologias de quem a escreve. Assim, ao desvelar a América como invenção, O’Gorman convoca historiadores e leitores a desconstruir os discursos hegemônicos, abrindo espaço para uma historiografia plural e crítica que reconheça a riqueza das múltiplas realidades históricas e culturais do continente.
Entre as reflexões de Paz e O’Gorman instala-se um debate que atravessa os campos da crítica cultural e da celebração da identidade. Paz, ao poetizar a condição americana, não nega as feridas do colonialismo, mas sugere que a própria dor pode se transformar em fonte de criação e renovação. Para ele, o barroco americano, o sincretismo religioso, a mestiçagem e a diversidade cultural são manifestações de uma síntese que, embora nascida da violência, transcende-a e inaugura formas inéditas de expressão e existência. O’Gorman, por sua vez, nos alerta para os perigos de romantizar esse processo, enfatizando a necessidade de reconhecer as estruturas de poder, dominação e exclusão que moldaram a América e ainda influenciam suas dinâmicas políticas e culturais. O embate entre eles não é um mero confronto, mas uma dialética fecunda que convida a pensar a América como um espaço onde a história, a cultura e a identidade estão sempre em construção, tensionadas entre imposição e resistência, entre apagamento e reinvenção.
Assim, a invenção da América é um processo ambíguo, aberto e incessante, um terreno onde o passado se cruza com o presente numa epopeia que não se encerra. Ela nos exige um olhar que seja ao mesmo tempo crítico e sensível, que reconheça as múltiplas camadas da experiência americana sem ceder ao simplismo ou ao dogmatismo. O ato de inventar a América permanece vivo em cada gesto cultural, em cada reivindicação política, em cada esforço por afirmar uma identidade plural e dinâmica. Ler Octavio Paz e Edmundo O’Gorman é, portanto, um convite a navegar esse labirinto com os olhos atentos da crítica e da poesia, buscando compreender que a glória da América não está apenas em sua conquista geográfica, mas na capacidade de reinventar-se permanentemente, transformando dor em beleza e silêncio em voz.
Por Helida Faria Lima.

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